Domingo, 11 de Julho de 2004

Um novo modelo de gestão?

Afirmava, numa entrada anterior, que adoptaria um novo modelo de gestão se fosse confrontado com argumentos consistentes que me fizessem vacilar na defesa do actual modelo de gestão e administração escolar. Então aparece a questão pertinente, que revela o olhar acutilante de Pi +2,suscitando um esclarecimento sobre o tipo de argumentos que seriam necessários para a adopção de um novo quadro de referência. A minha primeira abordagem à questão (como se notará pelo comentário realizado) não foi suficientemente esclarecedora. Aqui está um bom pretexto para limpar algumas teias de aranha. Na verdade, todos os nossos conceitos são claros e óbvios, até ao momento em que os questionámos, em que nos interrogamos sobre os seus fundamentos. Ora, é isso que me proponho fazer. Contarei com a vossa ajuda no sentido de acrescentar ou contrapor as minhas afirmações.
Então a questão que se poderá colocar de imediato é a seguinte: Quais os motivos responsáveis pela adopção de um novo modelo de gestão?
Se todos aqueles que me visitam diariamente acrescentassem um novo motivo teríamos um conjunto de razões que depois de serem categorizadas dariam corpo “à nossa” matriz de análise. Sem o rigor de um estudo científico mas suficientemente inovadora se considerarmos os meios utilizados para a sua elaboração. É este o desafio que vos coloco.
1. Na educação são os fins que ordenam os princípios e os meios. Fica desde já claro que recuso qualquer modelo de gestão que, directa ou indirectamente, não tenha como meta principal a formação integral dos alunos. Não aceitarei um modelo que pretenda reduzir o aluno à sua dimensão profissional mesmo que esta seja decisiva para a expressão das restantes dimensões individuais. A eficiência e a eficácia são conceitos diferentes. Se no processo de formação dos alunos é privilegiada a eficiência, o acto de gestão procura a eficácia. Primeiro motivo (neste caso a ordem é arbitrária): “Uma liderança deve ser eficaz”. É difícil aceitar um modelo de gestão despersonalizado. A figura do líder e o seu estilo de liderança são decisivos para o sucesso de qualquer modelo. Uma gestão eficaz pressupõe uma liderança eficaz. Para nos ajudar a esclarecer o que é isso de uma liderança eficaz recorremos a Michael Fullan que diz o seguinte: “se queremos que a liderança seja eficaz esta terá de ter um sentido explícito capaz de «fazer a diferença»; usar estratégias susceptíveis de mobilizar muitas pessoas para enfrentar problemas mais difíceis; ser responsabilizada através dos indicadores de sucesso contabilizados e debatidos; e ser, em última instância, avaliada pela forma como desperta o compromisso intrínseco do indivíduo, o que não é mais do que a mobilização do sentido de objectivo moral de cada um de nós.”
Será que o modelo actual promove uma gestão eficaz? Teremos de analisar o quadro de competências de cada uma dos órgãos da tríade Assembleia de Escola, Conselho/Director Executivo e Conselho Pedagógico e tentar perceber quais são os pontos críticos do seu funcionamento.
Como o texto já vai longo, aguardarei pelos vossos olhares.
publicado por Miguel Pinto às 13:53
link do post | comentar | favorito
|
7 comentários:
De Miguel Sousa a 12 de Julho de 2004 às 19:56
Caro pi , não me custa nada dar a mão à palmatória e lhe confessar que interpretei mal o seu comentário, contudo, pelo trajecto que tenho vindo a fazer (julgo que o dono do blog pode ser testemunha)custa-me aceitar que apelidem o que defendo de cooperativo, quando efectivamente não sou…quem acompanhou as minhas escritas teve oportunidade de ler um artigo em que colocava a hipótese do gestor desde que formado nas ciências da educação. Confesso que tenho feito alguma inversão, isso muito por culpa dos maus exemplos dados pelos gestores, que privilegiam sempre uma gestão cega e pouco humana, onde o que conta é o resultado económico. Raramente vejo exemplos de gestores que procuram o resultado através da dignificação da profissionalidade dos seus subordinados (talvez esteja aqui grande parte da justificação do problema da rentabilidade que tanto se fala para cortar nos ordenados). A este tipo de gestores estarei frontalmente contra a entrada na escola, já basta o mau exemplo da gestão feita nos hospitais S.A.
De pi + 2 a 12 de Julho de 2004 às 00:01
Meu caro Miguel Sousa: não pretendi nem pretendo ser deselegante ou mal-educado consigo ou com ninguém. Pretendo, somente, discutir ideias no espaço de um comentário de um blog. As regras de polidez que sigo na minha vida aplicam-se a todo o lado, incluindo a Internet. Relativamente à minha defesa de gestores não docentes gostaria de saber em que é que isso colide com o princípio de que a dimensão pedagógica deve estar sempre à frente da dimensão económica. Eu concordo com a submissão do primado do económico ao primado da dimensão educativa. Sou um forte defensor da escola pública como espaço de qualidade educativa, de integração e de desenvolvimento social. O que simplesmente questionei foi a limitação que a actual lei impõe de restringir aos docentes a possibilidade de gerir uma escola. Aliás essa nem é para mim a questão mais importante. O nó górdio do problema da gestão escolar é, por uma lado, a perversão gerada por um sistema que perpetua o imobilismo, o despotismo e a má gestão. Por má gestão entendo, acima de tudo, a gestão pedagógica, a dimensão central da gestão escolar, e não a gestão económica-financeira, embora esta não deva ser negligenciada. Foi a má gestão que subalternizou o papel dos professores de educação física na gestão do curso tecnológico de desporto, como tivemos a oportunidade de ler neste blog. E é um mau sistema de gestão que perpetua este sistema de caciquismo nas nossas escolas. Daí ter afirmado que se impunha uma limitação do número de mandatos para os directores executivos.
De Miguel Sousa a 11 de Julho de 2004 às 22:24
A boca do corporativista é tão deselegante que só a vou deixar passar pelo facto de não me conhecer (e seria sensato não fazer juízos de valor tão facilmente, sob risco de cair em descredito.Defendo o professor gestor (com a referida formação em administração e gestão escolar) e defendo que os alvarás das farmacias devem ser exclusivos dos farmaceuticos, porque acredito que as especificidades deste tipo de instituição deve obrigar a uma gestão da causa onde os principios pedagógicos devem estar sempre à frente dos económicos. Por outro lado essa medida neo-liberal de mandar os gestores para todo o lado deu a barraca que deu nos hospitais S.A.. Já agora e voltando ao coroporativismos, deixe-me ser tão sensato como vc foi comigo e pergunatar-lhe que essa mania de meter os gestores em todo lado não será tb um certo corporatiovismo neo-liberal? sem ofensa.

PS: vá me visitar em www.educarparasaude.blogs.sapo.pt...terei todo o gosto em recebe-lo
De pi + 2 a 11 de Julho de 2004 às 22:16
Explique-me uma coisa, meu caro Miguel Sousa, que eu nunca compreendi. Porque raios só os docentes podem ser gestores escolares? No caso de me indicarem qual é a vantagem em restringir-se aos professores o acesso à gestão escolar agradecia. Pessoalmente não consigo ver nenhuma. Faz-me lembrar a Associação Nacional de Farmácias que defende com unhas e dentes a atribuição de alvará de farmácias exclusivamente a farmacêuticos. Alguém também consegue explicar esta exclusividade sem utilizar argumentos de natureza corporativa? Não se pense, contudo, que defendo a entrega da gestão das escolas a gestores tecnocratas que a última vez que entraram numa escola foi na qualidade de alunos. Daí ter dito que se deve privilegiar gestores com formação pós-graduada na área da gestão. Naturalmente que a experiência educativa, nomeadamente ao nível da docência, será, necessariamente, um factor de relevo a ter em conta no concurso público que defendo.
De miguel sousa a 11 de Julho de 2004 às 20:15
Como sabes concordo com a gestão democrática das escolas, tendo como gestor o professor, se possivel com formação na área da gestão e administração escolar, contudo julgo ser pertinente nos interrogarmos porque é que se defende este modelo à tanto tempo e por que será que continuamos com escolas onde grassa o "insucesso". Coloquei o insucesso entre aspas porque efectivamente acredito que ele é mínimo se comparado com as coisas boas que se fazem na escola e que nem eu nem tu nem os demais trazemos para aqui.

De whiteball a 11 de Julho de 2004 às 17:30
Nems sei bem o que dizer...colancam-se-me ainda muitas dúvidas!
Já de férias?
Eu não: tenho as aulas do recorrente noctuno até 16/7
Abraço, WB
De pi + 2 a 11 de Julho de 2004 às 15:31
“ (…) recuso qualquer modelo de gestão que, directa ou indirectamente, não tenha como meta principal a formação integral dos alunos. Não aceitarei um modelo que pretenda reduzir o aluno à sua dimensão profissional mesmo que esta seja decisiva para a expressão das restantes dimensões individuais.” Já somos dois a concordar com este pressuposto importante. Relativamente ao autor que cita quem é que pode dizer que, nas nossas escolas, com o actual modelo de gestão, “as direcções são responsabilizadas através de indicadores de sucesso contabilizados e debatidos”? Foi por isso que mencionei expressamente a avaliação da gestão em função de objectivos consignados em planos anuais de melhoria do funcionamento escolar. Os objectivos podem ser muito variados porque a avaliação de desempenho das instituições educativas tem que ser multidimensional e não realizada através de rankings que pretendem reduzir tudo a um número. Alguns índices possíveis: percentagem de alunos que concluem os seus estudos nos ensinos básico e secundário, percentagem de abandono e de retenção escolares, número de faltas dadas por professores, funcionários e alunos, visitas de pais e encarregados de educação aos directores de turma, número de participações e processos disciplinares dos alunos, etc. Este tipo de índices são relativamente objectivos e fáceis de reunir. Todavia, penso ser igualmente muito importante que se proceda à avaliação do clima institucional das escolas, de forma sistemática e credível, de forma a captar fenómenos e processos organizacionais mais complexos e subtis.

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Julho 2005

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
28
29
30
31

.posts recentes

. Outro Olhar... só no blog...

. Novo lugar.

. Exemplos que (nada) valem...

. (Des)ordem...

. Outros olhares... a mesma...

. E esta?

. O blogspot encalhou.

. Bolonha aqui tão perto.

. Olhar distante.

. Faz de conta.

.arquivos

. Julho 2005

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

. Dezembro 2003

blogs SAPO

.subscrever feeds