Sexta-feira, 11 de Junho de 2004

As negociatas (III)

Não me sinto obrigado a corroborar teses corporativas. Tenho procurado promover análises suficientemente distantes dos interesses mesquinhos e pessoais, busco os constrangimentos (locais ou nacionais) que obstruem as iniciativas locais e impedem o desenvolvimento dos diversos projectos educativos, denuncio práticas depravadas dos diversos actores educativos, aponto soluções quando elas se afiguram como tal. Demarco-me, categoricamente, de um seguidismo acéfalo que poderá manter um statu quo mas que conduzirá ao atrofiamento da profissão, na medida em que a fará desligar das mutações sociais e impedir a sua regeneração.

Aproveito a esta entrada para clarificar algumas ideias:

  • Uma escola que promove a escola paralela dos explicadores ou dos centros de estudo é uma escola inscrita no ideário neoliberal mitigado. Esta ideia está admiravelmente desenvolvida por José Pacheco aqui. Na página 10 pode ler-se: “ O Estado neoliberal identifica-se nas práticas de segregação e de produção de desigualdades reais porque não põe em risco os interesses e a liberdade individual. (...) As práticas neoliberais perspectivam a educação como sendo um dos pilares fundamentais no edifício económico, sobretudo se for entendida como mercadoria, produto, bem de consumo e não propriamente como serviço público. Mesmo que seja salvaguardada esta dimensão, o neoliberalismo faz da educação um serviço, cuja eficiência e produtividade de resultados é directamente proporcional à intervenção dos grupos de mercado

  • Concordo com Sacristán (2000: 51) quando refere que nem todos os males sociais, incluindo os do mundo educativo, podem atribui-se à incursão neoliberal, sem que se mencione a crise das ideias progressistas e o triunfo, pelo menos parcial, do pensamento débil.

  • É condenável sob todos os pontos de vista a exploração do homem pelo homem. Será um acto mais pernicioso se ele for desencadeado por um seu par.

  • Reúne um elevado consenso a ideia de que os professores auferem vencimentos pouco compatíveis com a relevância social da sua função. É legítimo que os professores procurem melhores condições materiais.

  • As perversidades e os paradoxos avultarão no sistema educativo enquanto este não se colocar declaradamente, sem preconceitos ideológicos, ao lado dos alunos e das suas necessidades (incluindo a sua preparação para a profissão).

  • Embora a organização da escola padeça dos males que caracterizam todo o sistema educativo, existem escolas que disponibilizam apoios educativos aos alunos dentro e fora do horário de trabalho do professor (alguns destes professores utilizam voluntariamente parte do seu tempo livre para ajudar os alunos). Surpreendentemente, ou talvez não, verificamos que o recurso à escola paralela continua a ser privilegiado.

  • Não é fácil separar o trigo do joio, sobretudo quando temos dificuldade em identificar o trigo.

    publicado por Miguel Pinto às 01:08
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    9 comentários:
    De Jos Manuel Faria a 14 de Junho de 2004 às 09:27
    Caro PJ estou a comparar licenciados que trabalham no público.ARquitectos, engenheiros, médicos, autarcas,etc. Eu sei que estes profissionais no privado ganham mais.
    De Miguel Pinto a 12 de Junho de 2004 às 12:05
    Peço desculpa pela referência errada. O link correcto é este: http://arcanjo.blogs.sapo.pt/arquivo/2003_12.html (http://arcanjo.blogs.sapo.pt/arquivo/2003_12.html) :(
    De PJ a 12 de Junho de 2004 às 11:30
    Não consigo aceder ao link http://arcanjo.blogs.sapo.pt/arquivo/013492.html. (http://arcanjo.blogs.sapo.pt/arquivo/013492.html.) Terá havido algum erro de digitação?
    Quanto aos comentários do José Manuel Faria (JMF) diria somente que existe um erro de base na sua apreciação, porquanto compara vencimentos de classes profissionais de classes profissionais distintas pertencentes a sectores distintos (público versus privado). Uma coisa é afirmar que os funcionários públicos, por comparação com trabalhadores com o mesmo nível de formação, ganham mal relativamente aos do sector privado, o que, de resto, deverá ser demonstrado ao nível do argumento. Outra coisa completamente distinta é comparar salários de funcionários públicos com formação superior pertencentes a classes profissionais distintas. Conheço muito poucas pessoas que integravam a carreira docente e que, num momento da sua vida profissional, transitaram para a carreira técnica superior. Todas elas se arrependeram porque ao fim de alguns anos os seus salários eram consideravelmente inferiores aos dos seus colegas que não fizeram uma idêntica mudança de carreira. Uma nota final de ironia. Sem pretender defender classes profissionais às quais não pertenço, têm alguma ideia de quanto custa a um médico dentista montar o seu próprio consultório com todo o equipamento envolvido? Se conhecerem algum perguntem-lhe e comecem a imaginar quanto tempo levariam a amortizar um investimento dessa grandeza.
    De Jos Manuel Faria a 12 de Junho de 2004 às 09:57
    Os licenciados: médicos,dentistas,gestores,deputados,autarcas,secretárias dos deputados,engenheiros, tudo malta do Estado ganham muito menos de 300 contos ( a Fortuna!), os docentes esses sim são uns sortudos! Outra asneira. Cumprimentos. Até tu Miguel! Também precisas de dar explicações? Ou não?
    De Jos Manuel faria a 12 de Junho de 2004 às 09:47
    Caro miguelo não há dúvida que é muita Massa. Ora 300 contos a dividir por 120 alunos, dá (...), 3 contitos por aluno/mês. Estou Rico. Mas que grande asneira!Já foste ao dentista?
    De Miguel Pinto a 12 de Junho de 2004 às 01:55
    Caro PJ, os problemas que enunciou no seu comentário e o preocupam também são meus. A dificuldade da escola em lidar com a resiliência escolar, a balcanização instalada que reduz a agilidade dos diversos actores educativos para atacar atempadamente os problemas de curto e médio prazo, a criação de uma cultura de responsabilização e de apoio aos profissionais docentes e não docentes onde emergirá o mérito nos desempenhos, a negação absoluta e o combate às práticas perversas que atrofiam o desenvolvimento das instituições e das pessoas, etc.
    As divergências (será um exagero falar de divergências) manifestam-se no âmbito da actuação do professor (restrita no seu entender: “não invoquemos causas abstractas distantes, mas centremo-nos naquilo que se pode mudar em concreto dentro de cada escola”, mais abrangente no meu). Se observar este texto (http://arcanjo.blogs.sapo.pt/arquivo/013492.html) (http://arcanjo.blogs.sapo.pt/arquivo/013492.html)) defendia a necessidade de aprendermos a lidar com o problema da culpa e percebermos que em doses moderadas, ela pode representar um factor de motivação, de inovação e de aperfeiçoamento. Não defendo a busca de um bode expiatório no governo ou na conjuntura para legitimar a inacção, as más práticas ou o mau funcionamento da escola. O que se pretende é perceber o envolvimento e o sentido da coisa educativa. Quanto à questão dos vencimentos dos professores, há uma questão que terá de ser introduzida: as tabelas de remunerações dos educadores e professores do ensino básico e secundário divergem das tabelas de remunerações dos docentes do ensino superior. Tanto num caso como no outro, os professores, por comparação com outras classes profissionais de funcionários públicos, não podem dizer que ganham mal.
    De miguelo a 11 de Junho de 2004 às 20:55
    como é que consegue ganhar mais do que eu ter menos alunos e dizer mais asneiras???
    De Jos Manuel Faria a 11 de Junho de 2004 às 19:44
    Os professores para o que fazem são muito bem pagos. É verdade, não é PJ. Assim é que é falar! Portugal é um país dos mais desenvolvidos do Mundo, e Rico. Eu estou rico. 300 contos não é brincadeira nenhuma.É muita massa. Mais, só tenho 120 alunos.
    De PJ a 11 de Junho de 2004 às 11:28
    Não me choca a existência de centros de explicações no sector privado ainda que, na esmagadora maioria dos casos, geridos por professores oriundos da escola pública. Como igualmente nada tenho a apontar ao médico que se dedica à sua prática privada após ter terminado o seu dia de trabalho no hospital público. O que mais me choca é a falta de resposta da escola pública às necessidades educativas de uma fatia importante dos alunos, traduzidas nos elevados índices de retenção e abandono escolares. A grande questão é saber porquue é que "existem escolas que disponibilizam apoios educativos aos alunos dentro e fora do horário de trabalho do professor (alguns destes professores utilizam voluntariamente parte do seu tempo livre para ajudar os alunos)" e noutras, a grande maioria, isso ou não acontece ou acontece de forma muito insuficiente. Apesar de todas as insuficiências sistémicas do sistema educativo, que são reais, não invoquemos causas abstractas distantes, mas centremo-nos naquilo que se pode mudar em concreto dentro de cada escola. Apoiem-se as escolas cujas práticas consolidem uma verdadeira aprendizagem global, particularmente junto dos alunos mais frágeis no plano social. Apoiem-se os melhores professores, aqueles que se esforçam no seu quotidiano para promover uma escola pública de melhor qualidade, ao invés de tratar todos com base num igualitarismo hipócrita. Escutemos as palavras sábias do Presidente da República no seu discurso de 10 de Junho e apliquemos o seu pensamento ao quotidiano das nossas escolas: "É fundamental o aprofundamento de uma cultura de mérito e avaliação que combata o clientelismo e a mediocridade." Finalmente, e sei que esta frase poderá chocar muita gente, não partilho do consenso sobre os vencimentos baixos dos professores. Todos os funcionários públicos gostariam de ganhar mais, particularmente quando uma parte importante deles não é aumentado há dois anos. Na última versão do Education at Glance os vencimentos dos professores portugueses com 15 anos de carreira encontravam-se no topo, em termos proporcionais, por comparação com os restantes países da OCDE. A principal razão deste honroso lugar prende-se com uma carreira docente cuja progressão não tem praticamente obstáculos, por comparação com outras carreiras da função pública cuja abertura de concursos depende da vontade do poder político, concursos estes que envolvem, frequentemente, a realização de provas de avaliação curricular exigentes e a apreciação do currículo dos candidatos. Os professores portugueses, e refiro-me unicamente aos que possuem um vínculo estável, podem dizer que gostariam de ter um salário mais elevado. O que não podem dizer, por ser falso e injusto, por comparação com outras classes profissionais de funcionários públicos, é que ganham mal.

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