Sábado, 5 de Junho de 2004

O sentido humano.

No final do ano lectivo é tempo de balanço. Sem grandes arranjos linguísticos, há que detectar o que correu bem, mal e o que não correu. A actividade lectiva com os alunos do 12º ano será encerrada dentro de poucos dias, embora os alunos prolonguem a sua permanência na escola devido à realização dos exames nacionais.
Os últimos dias foram marcados por este processo avaliativo. Os alunos expressaram os seus pontos de vista em tudo, ou quase tudo, que tem a ver com a vida escolar. Desde a matéria programática (no 11º e 12º anos são os alunos que seleccionam os conteúdos a abordar ao longo do ano – bem a propósito da entrada anterior onde se tratava a questão da autonomia), às condições de realização das actividades, ao ambiente de trabalho, às questões afectivas, às expectativas frustradas, aos sonhos feitos e desfeitos (alguns deles ainda não deixaram de sonhar), passando pelos conflitos e a sua gestão, etc. Para além da discussão aberta, franca e partilhada por todos, peço um registo escrito que dê conta de algo marcante. Que mereça ser dito, que mereça ser ouvido. Acompanho estes alunos desde o 10º ano, 6 horas por semana, foram 3 anos de trabalho.
O E. é um aluno reservado, é.... transparente. Não encontro outra expressão que traduza o seu olhar. Não é um aluno “brilhante”, mas tem o brilho que falta a muitos desses alunos. Quer concluir o 12º ano e sonha continuar a estudar não obstante a dificuldade que tem em cumprir as exigências de cada área disciplinar. No 10º ano, alguns dos seus professores vaticinavam-lhe um curto futuro escolar. Alguns dirão que o “facilitismo” que graça no sistema educativo permitiu ao E. chegar ao 12º ano. Dizem que se aumentasse a “exigência” ele não passaria do 10º ano, porventura nem teria lá chegado. Mas chegou, chegou ao 10º ano e prepara-se para abandonar a escola, com o 12º ano concluído (como gostaria de ver a cara desses colegas que se atreveram a conjecturar sobre o seu futuro).
E. abeirou-se de mim, como os restantes colegas, entregou a sua reflexão e recebeu um aperto de mão.
aluno E.JPG
É o sentido humano que me encoraja e que me faz gostar do que faço.
publicado por Miguel Pinto às 12:40
link do post | comentar | favorito
|
3 comentários:
De Henrique Jorge a 6 de Junho de 2004 às 18:04
Bem haja, e continue assim.
De 1poucomais a 6 de Junho de 2004 às 12:51
São coisas destas que fazem sentir que vale a pena o trabalho como professor.
De whiteball a 5 de Junho de 2004 às 22:07
Como te compreendo...nem imaginas! Por "estes lados" é parecido...e depois tenho tendência para ficar deprimida; e ainda continuam as aulas da noite até 16 de Julho...só osso dizer que ando cansada...mas não consigo passar sem os "meus" alunitos...Abraço, WB

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Julho 2005

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
28
29
30
31

.posts recentes

. Outro Olhar... só no blog...

. Novo lugar.

. Exemplos que (nada) valem...

. (Des)ordem...

. Outros olhares... a mesma...

. E esta?

. O blogspot encalhou.

. Bolonha aqui tão perto.

. Olhar distante.

. Faz de conta.

.arquivos

. Julho 2005

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

. Dezembro 2003

blogs SAPO

.subscrever feeds