Domingo, 9 de Maio de 2004

Política apartidária.

Recebi com agrado um comentário do meu amigo Miguel ao texto Mais Conselho Pedagógico.  Como muitos dos comentários sugeridos pelos textos que aqui vou abrigando, este requer um acrescento, um aclarar das minhas posições sobre o assunto. Através destes comentários é possível percebermos a clareza, ou a falta dela, da nossa escrita. Com modéstia genuína dizia há já algum tempo, numa troca de comentários com o Prof. Vital Moreira, que os meus pontos de vista ainda não dispensam alguns apêndices, perdoados às personalidades públicas como é o caso dele, talvez porque apresentam um legado farto de intervenções e publicações. É disso que se trata aqui. Mais do que refutar as ideias do meu amigo, embora passíveis de contestação, importa reconfigurar o que foi dito para que o essencial seja debatido. Dizia o meu amigo que “a competência do professor não pode nem deve advir do facto de possuir um discursos político ou apolítico. Por outro lado confesso que muito dos maus exemplos que tenho visto na escola vem dos professores que têm discursos políticos, embora não tenha qualquer dificuldade em assumir que por parte de alguns apolíticos também já vi muita "pasmaceira" e "bajulice", acho que não é determinante. Ao contrário, este modelo de gestão de escola espalhando a decisão por tudo e por todos, esvaziou os órgãos. Estou frontalmente a favor do antigo modelo
Ora, em primeiro lugar esclareço o sentido que impregna o meu conceito de “político”. Quando me refiro ao acto político refiro-me ao modo de se haver em qualquer assunto particular para se obter o que se deseja; os professores e todos os outros profissionais, quando procuram alterar o seu envolvimento estão a expressar a sua dimensão política. É disso que se trata quando os docentes lutam por aquilo em que acreditam nos espaços onde circulam. Sendo o Conselho Pedagógico um órgão fundamental para exercer esse acto de civilidade, os representantes dos professores não podem descurar o significado do seu papel e os efeitos das suas intervenções na escola. Ora, a questão que se pode colocar é saber se é possível ser político sem ser partidário de uma qualquer associação política. Supostamente, as pessoas do mesmo partido político comungam de um conjunto dos princípios e dos objectivos que servem de guia a tomadas de decisão e que fornecem a base da planificação de actividades. Mas, mesmo neste caso, existem variações e divergências que são testemunhadas por todos nós diariamente através dos órgãos de comunicação social. Neste sentido, voltando ao comentário, direi que todos os professores, voluntariamente ou não, possuem um discurso político. Paradoxalmente, até os actos apolíticos traduzem, em última instância, actos políticos. Outra coisa diferente é considerar a associação da competência profissional à “partidarite”. Respeitando as opções partidárias de todos, porventura cada um de nós poderá expressar nas suas tomadas essas posições militantes, seria um absurdo correlacionar a competência profissional do docente com o colorido do cartão partidário. Quando afirmo que o reconhecimento de que os conselhos pedagógicos não funcionam é admitir a inaptidão dos professores, não só dos professores representantes, mas de todos os outros que os elegeram, refiro-me à incapacidade, legitima ou não, dos professores como um todo profissional.
No texto que suscitou este acrescento há uma crítica explícita ao actual modelo de gestão. Fui daqueles que, no período em que decorreu a discussão pública do documento, acolheu com optimismo a proposta. Via na Assembleia de Escola uma possibilidade: de ampliação dos espaços de discussão e decisão com a comunidade educativa que estavam, até aí, circunscritos ao Conselho Pedagógico e Conselho Directivo; do Conselho Directivo prestar contas, periodicamente, pelas inúmeros actos de gestão; do assumir de uma verdadeira autonomia para a concretização de projectos educativos singulares. Embora, a partir da constituição do Conselho Pedagógico fosse possível conjecturar dificuldades de funcionamento, nessa altura, acreditava que este órgão assumiria um papel crucial na vida da escola.
Na verdade, as coisas não se passaram como eu desejava. Será que as razões que determinaram a inexequibilidade deste modelo de gestão não inviabilizariam o modelo anterior?
publicado por Miguel Pinto às 16:34
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5 comentários:
De Miguel Sousa a 11 de Maio de 2004 às 10:32
Caro colega, primeiro acho pouco elegante a forma como me trata por tu sem me conhecer de parte alguma, segundo ainda estou por perceber o que escrevi que lhe deu a impressão do meu desconhecimento acerca do 115/A
De Jos Manuel Faria a 10 de Maio de 2004 às 21:53
Caro Miguel Sousa deves ler o DL-115/A/98 para perceber do que falo. A Assembleia pode destituir A C.E.,etc.
De miguel sousa a 10 de Maio de 2004 às 21:10
Alegro-me ver a discussão que se está produzindo no teu blog, acredita que é uma felicidade, mas como comentário gera outros comentários e tu sabes que não resisto, aceita lá esta minha humilde contribuição:
Juntando o que disseste e o que disse o colega Manuel Cabeça acerca do ser político na escola, devo esclarecer que os exemplos do raciocinio político continuam a ser um autentico desastre, estou liberto deles e se quiseres achar que esta minha forma de estar é política, tudo bem, então é só esse tipo de política que aceito fazer na escola. O processo de tratamento das questões da educação, dada pelos políticos é uma amalgama de contradições, quiçá misturados com alguma falta de honestidade, num caldo que tem como outro ingrediente forte a demagogia. Julgo que o insucesso dos modelos escolares padeceram disso mesmo: uma forma política de estar na profissão de professor. Para mim é triste que se esqueça os alunos e se pense no políticamente correcto, ou, ainda mais grave, empurrar para o fracasso leis que só porque têm outra cor política deixam de ser boas.

Para fianlizar, meu caro amigo e talvez fosse mais correcto começar por aqui, devo-te dizer que entendi o teu sentido "político" de estar na educação, mas quis espigaçar consciências...já me vais conhecendo..eh eh...aquele abraço.

PS: Não me pareçe que os professores tenham medo de opinar quando estão na Assembleia, acho até, pelo menos nas que por lá passei, que havia professores a mais. O problema é que NÃO CONCORDO QUE SEJA A ASSEMBLEIA O PODER....acho que esse deve efectivamente ser bi-partido: administrativo e pedagógico


desculpa ser tão grande...e também te digo que o vou publicar no meu blog...mais umavez aquele abraço.
De Jos manuel Faria a 10 de Maio de 2004 às 19:25
O órgão de gestão máximo é a Assembleia de Escola como sabes, mas os docentes têm medo de opinar, e por isso, a situação é a que sabes. É sempre bom haver um Pai- A Comissão Executiva!
De manuel cabea a 10 de Maio de 2004 às 09:27
basicamente concordo contigo, e não é novidade. Apenas pequenos pormenores poderão divergir em sentido e nunca em opinião.
Primeiro, o sentido de político, a escola não terá alternativas até ao momento em que forem os seus profissionais e os seus demais interessados a definir as opções, o caminho, o sentido da escola e da escolarização. Esperar que sejam outros a tomar essa iniciativa por questões de receio político ou partidário é fzer a vez da avestruz.
segundo momento, não ambiciono para a escola básica e secundária o estatudo do ensino superior, mas é um bom reflexo do que pode ser a conjugação de opiniões, a confluência de pontos de vista, a construção de um interesse colectivo.
Pode passar por aí algum do mal estar que este diploma despejou nas escolas por pura e simplesmente muitos dos profissionais se absterem de posições, recusarem assumir opções.
Quando se pensou na divisão tripartida dos poderes pensou-se na construção de um sentido colectivo de escola, na participação de parceiros que a escola necessita e no contributo para a assunção e para o reforço das opções dos profissionais da escola.
E acredita que sei do que falo.

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