Quinta-feira, 15 de Abril de 2004

Um professor cultural.

 A minha incursão pela Escola Cultural não dispensa um olhar atento, crítico e inconformado, aceita a ideia que emerge da experiência concreta, anseia por uma reconfiguração da escola situada de dentro para fora, de baixo para cima. É nesta rede de olhares, de perspectivas e de experiências que a escola cultural se concretiza. É por esse facto que tenho apelado ao envolvimento de todos os actores educativos neste esforço colectivo de reconstrução da escola. Não de uma escola qualquer, mas de preferência na regeneração da escola cultural.

Uma escola cultural não dispensa um professor cultural. O perfil ocupacional deste professor decorre do modelo pedagógico de escola e do quadro de actividades educativas a desenvolver nela. De facto, são três os âmbitos da acção educativa: a turma, a escola e a comunidade. Espera-se que o professor ultrapasse a dimensão curricular e se envolva nos outros âmbitos da acção educativa. Não se trata de apelar ao voluntarismo dos professores. Concordo com o Manuel, esse apelo seria o desvirtuar cultural. Uma escola viva e animada exige um professor-agente-cultural, o professor-animador. Como foi dito em textos anteriores, uma escola cultural não é uma escola rica. É, no entanto, mais cara do que a escola actual. A valorização da escola passará pela concessão de um crédito anual de horas que será gerido pela escola e que permite que o plano de actividades culturais e desportivas possa ser concretizado. O orçamento da escola terá de contemplar a realização do seu plano anual de actividades. Este investimento requer a responsabilização dos envolvidos em todas as actividades culturais e cada um dos seus elementos. Valorizar exige comprometimento, avaliação e prestação de contas.

Após a definição do perfil ocupacional do professor cultural resulta o perfil de formação. Na formação inicial de professores é necessário que os planos de formação das Licenciaturas em Ensino não omitam a especificidade do trabalho desenvolvido nos clubes escolares. Na socialização profissional dos novos professores, nomeadamente no Estágio Pedagógico, há que proporcionar aos professores estagiários experiências no âmbito destes clubes e na linha do que é defendido por Januário (1996: 179) há que promover “o ensino reflexivo dando significado às experiências de ensino «melhor sucedidas», a fim de transformar essas percepções em instrumentos de trabalho e em rotinas de ensino, dando segurança ao estagiário e aumentando consideravelmente a sua eficácia docente”.

Para os professores em exercício, no âmbito da formação contínua há que, a partir das vivências e práticas concretas nos clubes escolares, procurar o significado e as implicações desta participação no desenvolvimento pessoal dos alunos.

O professor desenhado para servir a Escola Cultural pode ser delineado a partir de vários níveis de análise. Patrício (1997) ao pensar no professor para os anos 2000 traçou as linhas principais do seu perfil funcional e formacional, reflectiu sobre o estatuto social e profissional e, finalmente, o perfil cívico e intelectual. Mas é a visão de um professor situado no seu tempo que importa enfatizar. A forma como o professor enfrenta as mudanças e os problemas da pós-modernidade, assim como os requisitos que o seu papel assume neste contexto, não podem, na minha perspectiva, retirar a paixão ao ensino. “Não há coerência nenhuma em fazermos o discurso da prioridade da educação e recrutarmos depois os futuros docentes (...) com uma vocação profissional de recurso” (Patrício, 1997: 69).

Instalar-se-á a controvérsia?

publicado por Miguel Pinto às 23:29
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1 comentário:
De RJB a 18 de Abril de 2004 às 18:04
Sim, claro, na perspectiva em que resolveu incluir-se (e à "sua" escola), concorda-se com os seus argumentos e finalidades com extrema facilidade. Coloco, no entanto, uma pergunta: é possível, recorrendo ao(s) desenho(s) curricular(es) vigente(s), falar-se em transdisciplinaridade (julgo que posso retirar essa ilação a partir do que li) quando ainda não se pratica - nunca se praticou, aliás -, interdisciplinaridade na sala de aula? (repare que é um primeiro momento de elevação/construção cultural individual - não necessariamente solitário, mas que, nos modelos em que é aplicado actualmente, não é vazado para as diferentes reuniões/interecções com outros docentes.)
Fica a última pergunta: admitindo que o docente ultrapassa (ou reflecte ponderadamente) sobre a sala de aula, escola (comunidade escolar) e sociedade, de que forma pode agir? Atrevo-me a dizer que o modelo que pretende, que acredito ser justíssimo!, aliás, tal como o meu, só pode ter uma influência junto da turma com a qual trabalhamos.
Sejamos pragmáticos: a não ser que os modelos que queremos legitimamente sejam decretados pelo governo (um qualquer), a massa docente minimizará sempre o esforço lectivo, ignorando o escolar, tal como o faz em sociedade.
(Não sei se consegui transmitir com clareza suficiente o que penso, mas...)

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