Quarta-feira, 10 de Março de 2004

A moda dos exames II

No Causa Nossa, Vital Moreira (VM) faz uma referência ao meu comentário sobre o seu post “exames no ensino básico”. Ao ler o seu texto percebi que tinha deixado alguns rabos-de-palha na minha escrita. Creio mesmo que os meus pontos de vista ainda não dispensam alguns apêndices, perdoados às personalidades públicas, como é o caso de VM, talvez porque apresentam um legado farto de intervenções e publicações.

É com grande emoção que me deixo envolver nas discussões onde os temas, mais do que examinados, são vividos. Falar da educação e da escola é falar também da minha vida. Entrei muito cedo na escola e ainda permaneço lá. Isto não significa ficar refém de uma visão endógena da educação. Contudo, se os olhares lançados do interior da escola não forem revestidos por uma forte atitude filosófica, a posição seria constrangedora. Parafraseando Manuel Ferreira Patrício (1996:52): “não é possível realizar a prática humana mais importante, que é a da construção humana do próprio homem, sem a pensar ao fundo e sem lhe dar sentido”.

Regressando ao assunto. Falar dos exames ou de outras medidas de regulação e de controlo social da Escola Pública sem atendermos à política educativa que, no caso português, está impregnada por uma ideologia neoliberal e neoconservadora, seria uma discussão redutora na medida em que omitiria o porquê dessas medidas. João Barroso (2003: 74) ao caracterizar a evolução recente do sistema educativo português considera que “se assiste hoje, em Portugal, no quadro de uma «crise de soluções» gerada pela queda do mito da reforma educativa, à promoção, na comunicação social e junto de largos sectores da opinião pública, de um diagnóstico «catastrofista» sobre a situação em que se encontra o nosso sistema educativo”. Segundo o autor, “esse diagnóstico pretende abrir caminho à aceitação pela opinião pública de propostas de cariz «neo-liberal»(...)” (privatização do ensino, a subordinação da educação à lógica do mercado, com a livre escolha pelos pais, a competição inter-escolas, etc.) misturando essas iniciativas com outras mais conservadoras (o reforço da autoridade, do rigor, etc.). É neste contexto que vemos ser tomadas algumas das medidas de regulação institucional que vão no sentido de uma substituição do «controlo pelas normas» por um «controlo pelos resultados» (Barroso, 2003). Os exames são um dos múltiplos dispositivos de avaliação e de controlo das aprendizagens e dos resultados escolares.

A hostilização aos opositores das medidas que supostamente conduziriam à prestação de contas e à avaliação do desempenho acaba por rotular os signatários de corporativistas e, subliminarmente, de incompetentes. Ao não pactuar com medidas transviadas que visam, unicamente, conquistar o discurso do senso comum e que afastam dos fóruns de discussão os problemas e as matérias essenciais para a promoção da qualidade da educação, procuro restabelecer um problema central que urge resolver na educação – a revitalização da função personalizadora da escola.

É aqui que me encontro com a escola cultural.

publicado por Miguel Pinto às 00:55
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1 comentário:
De manuel cabea a 10 de Março de 2004 às 09:02
antes de mais, o visual ainda não é este. (estou na mesma).
Os exames são formas simplistas de controlar o trabalho docente e procurar validar a acção da escola em face de um resultado final, tal como qualquer linha de produção que procura, no controlo da qualidade, a satisfação do cliente. Quero acreditar que a escola é feita com pessoas, por pessoas, para pessoas e pelas pessoas o que faz com que os resultados finais sejam apenas um ponto a equacionar no meio de outros.
Defendo os exames, como defendo a autonomia dos profissionais, a capacidade de definir projectos, implementar ideias, adequar capacidades, flexibilizar oportunidades, descriminar para igualizar.
Sem isto é perder tempo, é tapar o sol com a peneira, é assobiar enquanto a caravana passa.

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