Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2004

Educação sexual em banho-maria

Li a entrevista da Secretária de Estado da Educação. Não respondi de imediato à tentação de ripostar sobre o teor dessa entrevista. É um discurso conservador, preconceituoso e que revela um grande desconforto na abordagem do tema - educação sexual. Contudo, parece-me uma pessoa desacompanhada (no executivo) nesta árdua tarefa de avançar com um projecto que se encontra na gaveta desde o ano 2000.

Não considero relevante dissecar o discurso da secretária de estado. Prefiro reflectir sobre o trajecto de alguns professores da minha escola que decidiram enfrentar o obscurantismo.

A minha escola escolheu ser uma Escola Promotora de Saúde (EPS). Suponho que nenhuma escola rejeitará esta designação mas nem todas as escolas aderiram ao projecto. Esta revelação é decisiva para se perceber que foi no âmbito do Projecto da Educação para a Saúde (PES) que este grupo de professores iniciou a sua caminhada. Não quero, para já, aprofundar o significado de uma EPS e as contradições que ela encerra (ficará para outro momento).

Recuando no tempo, em 2000, o Governo determinou que a Educação Sexual seria matéria obrigatória na organização curricular do ensino básico e secundário. Não se criou uma disciplina própria, não foi definido um programa, não se formaram professores e não se traçaram as linhas orientadoras para concretizar essa decisão. Embora a metodologia para abordar o tema não seja consensual, há um reconhecimento generalizado de que a sexualidade é uma vertente da condição humana que contempla as componentes biológica, social e psicológica do ser humano. Um conceito abrangente porque o aluno é integral.

Em vez da inacção, esta equipa do PES decidiu avançar, ainda que timidamente, para o problema. O que fazer? Como fazer? Qual será a forma mais correcta? Quem é que nos poderá ajudar? Até que surgiu um convite para que a escola fosse integrada no projecto de Doutoramento da Dra. Maria Teresa Machado Vilaça (UM) com resultados efectivos na formação de professores nesta área.

Ainda é cedo para se compreender quais as verdadeiras consequências do percurso realizado pelos professores. No entanto, já se sente o efeito que esta caminhada produziu nos intervenientes, como atestam estas palavras proferidas por uma professora: “Os conteúdos que foram ministrados nesta formação são pertinentes e muito úteis para o trabalho futuro. Penso que ao dispormos deste leque de informação a comunicação entre todos os professores que estiveram presentes terá que ser muito mais fácil e clara. Acredito que os conhecimentos adquiridos permitiram abater alguns dos nossos «medos»".

Ora, como diria o J. P. Serralheiro, é este movimento que se ordena de baixo para cima de dentro para fora que torna as escolas integrais. É esta capacidade de definir projectos e avaliá-los, de responsabilizar os actores como diz o Manuel, que torna as escolas competentes.

Utilizando as palavras do Miguel, são estes exemplos que nos fazem acreditar que só vale a pena pensar a escola com paixão.

publicado por Miguel Pinto às 00:24
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3 comentários:
De Jos Manuel Faria a 13 de Fevereiro de 2004 às 16:04
Caro Miguel desta "vez" tens razão. Não é tanto assim como digo!
De Miguel Pinto a 11 de Fevereiro de 2004 às 17:18
Concordo contigo quando consideras que a nossa escola é assexuada. Acrescento que ela é acrítica. Haverá alguma contradição entre o que digo agora e o que escrevi anteriormente?
Considero que não.
Mas, convém separar o trigo do joio. Não devemos confundir as iniciativas, sempre louváveis, individuais ou de pequenos grupos que rejeitam o “modus vivendi” instalado, da inércia colectiva que é o reflexo de uma liderança pouco interessada em promover uma cultura colaborativa.
De Jos Manuel Faria a 11 de Fevereiro de 2004 às 10:11
Caro Miguel na nossa escola em termos de Educação sexual não se tem feito absolutamente NADA! Os professores têm medo de abordar o Tema. O sexo é tabu na Secundária. A nossa escola é assexuada.

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