Sábado, 7 de Fevereiro de 2004

Formação contínua de professores – Um percurso desajustado

</font></span></u></b>

 

A formação contínua de professores tem sido mais falada pelo lado do problema do que pelo lado da solução. As abordagens à formação contínua decorrentes de uma tentativa de transferência da culpa da ineficiência do sistema educativo para os professores e para as escolas evidenciam essa forma de olhar para a temática. O objectivo é fazer com que os holofotes da opinião publicada se dirijam para os professores e para as escolas porque se procura demonstrar que é lá que se encontra a (in)competência, desviando desse modo a atenção do grande público da (in)acção política. Refiro-me ao empolamento dos resultados das provas aferidas, à publicação dos resultados dos exames nacionais e a respectiva ordenação das escolas, às incríveis histórias que a qualidade dos manuais escolares suscitaram, ao processo de colocação dos professores nas escolas, etc.


São exemplos deste tipo que produzem efeitos, porventura irreparáveis, na imagem social do professor. E cada vez que são anunciadas alterações no sistema educativo, sentem-se as pressões administrativas e políticas para que as inovações sejam implementadas com maior velocidade na esperança que os seus resultados se tornem visíveis na opinião pública. Esta obstinação pela rentabilização política das reformas ou dos pequenos ajustamentos estruturais não tem permitido aprofundar as causas profundas dos problemas que fazem definhar o sistema educativo.


A formação contínua de professores acaba por sofrer os efeitos da catarse do sistema suscitada por ministros que se acham "sabedores" e que se gabam da sua imunidade às influências corporativas. Misturam-se no mesmo saco as questões relacionadas com o sistema de avaliação dos docentes (que decorrem da acumulação de unidades de crédito atribuídos nas acções de formação), com a redefinição do modelo de financiamento dos centros de formação (as verbas devem ser transferidas directamente para as escolas e não, como até agora, para os centros de formação?) e, simultaneamente, com os resultados de investigação que surge no âmbito da avaliação da formação contínua.


Fica claro que não pretendo desvalorizar nenhum destes elementos. O que acontece é que, na minha perspectiva, urge separar as questões relativas à promoção da qualidade do ensino dos problemas (onde incluo a formação contínua) associados à avaliação do desempenho dos professores (com destaque para os requisitos para a progressão na carreira docente).


Um dado inquestionável é que a formação contínua dos professores tem tido uma natureza fragmentada. Como referem Fullan e Hargreaves (2001), muitas das iniciativas da formação contínua tratam o professor como um ser parcial, não como um todo. Talvez porque são iniciativas impostas do topo para a base que ignoram as diferentes necessidades dos docentes. Seria desejável que essas iniciativas estivessem relacionadas com os anos de experiência, o género e o estádio da carreira e da vida dos professores.


Todos sabemos que é este o panorama em que se desenvolve a formação contínua dos docentes.


É nesta medida que, colocando-me do lado das soluções, aguardo pelas iniciativas situadas da formação contínua. Desejava ver adoptado um quadro de referência que incorporasse estes aspectos: os propósitos do professor, a sua pessoa, o seu contexto e a sua cultura de ensino. Há que perceber que tipo de contexto tem maior probabilidade de apoiar o crescimento e o desenvolvimento do professor tendo em conta as suas intenções através do respeito pela sua pessoa, fazendo com que os docentes tenham a capacidade de responder aos desafios suscitados pelo ambiente mais global. Há que cuidar dos contextos, das formas de liderança e das relações de trabalho que promovem uma determinada cultura de ensino.

Os professores são integrais e necessitam de escolas integrais para se desenvolverem e aperfeiçoarem. Se a formação contínua dos docentes ficar indiferente a esta evidência, corre o risco de esvaziar o seu sentido e a sua relevância. E enquanto não houver vontade de corrigir esta trajectória continuaremos a caminhar em sentido contrário. Neste trajecto dissonante só tenho um desejo. Que o percurso seja circular. Quem sabe, se o tempo nos irá colocar de novo no ponto de partida.
publicado por Miguel Pinto às 19:13
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Duarte Vicente a 8 de Fevereiro de 2004 às 16:48
Penso que a formação de professores, especialmente no que diz respeiro ao ensino secundário deveria realizar-se essencialmente em duas vertentes: Vertente pedagógica e vertente científica.
Sobre a vertente pedagógica é interessante ler o livro da Piaget - A Educação Pós-Moderna de Pourtois et al. especialmente o Cap. 3 - Para uma pedagogia moderna, p. 310 onde é desenvolvido um quadro bem interessante a propósito dos sistemas multireferenciais e integrados.
Nesta vertente deveria ser também contemplada a formação de âmbito didáctico preparando e actualizando o docente para a manipulação de técnicas e processos, não só os novos mas especialmente esses.
Sobre a vertente científica, que considero a mais fraca do actual sistema em vigor, deveria ser obrigatória, como acontece no ensino superior: para se subir de escalão, deveria ser obrigatório um enriquecimento científico tipo pós graduação, por frequência de cursos ou seminários, pelo menos 3 em 3 anos.
Ao docente deveriam ser dadas condições de tempo, (redução de horário, ou licenças de formação...)e financeiras, (isenção de propinas para a frequência desses cursos....) entre outras possíveis.
Ainda para aqueles que o desejassem deveria haver ramos de especialização como educação de adultos, educação especial, admiistração escolar, psicologia e sociologia escolar, etc.
É esta a minha visão....
De miguel sousa a 8 de Fevereiro de 2004 às 13:52
Olá Miguel, gostei do artigo, mas julgo que necessita de ser aprofundado nos seguintes pomtos:

1º O sistema de controle relativamente às opções de formação dos professores deve existir dentro da escola e as opções de formação devem ser devidamente justificadas por escritos e serem submetidas a Conselho Pedagógico (só para não haver professores de Ed. Física a se actualizarem em acçõe do tipo "Os beneficios da mosca da fruta para a agricultura"...)

2º A progressão da carreira não deveria depender tanto dos créditos, que neste momento é condição sine quo non, para que esse peso fosse distribuído por trabalhos de investigação e de opinião acerca da escola;

3º O horário fixo para o professor, aliando à melhoria das condições de trabalho, talvez resolvesse alguma coisa...

aquele abraço...

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Julho 2005

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
28
29
30
31

.posts recentes

. Outro Olhar... só no blog...

. Novo lugar.

. Exemplos que (nada) valem...

. (Des)ordem...

. Outros olhares... a mesma...

. E esta?

. O blogspot encalhou.

. Bolonha aqui tão perto.

. Olhar distante.

. Faz de conta.

.arquivos

. Julho 2005

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

. Dezembro 2003

blogs SAPO

.subscrever feeds