Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2004

Uma escola pluridimensional reclama um desporto escolar inclusivo

texto do meu amigo Miguel Sousa servirá de antecâmara para a minha reflexão acerca de um dos clubes escolares que vai sobrevivendo aos sucessivos e indetermináveis ajustamentos no sistema educativo – O clube do desporto escolar.

O desporto escolar tem resistido à decapitação progressiva das actividades extracurriculares na escola. Mas, a eventual inércia provocada por registos legais, por vezes, contraditórios, nunca foi suficientemente forte para o aniquilar. Será a sobrevivência do desporto escolar às diferentes orientações das políticas desportivas e educativas um sinal de que atingiu efectivamente um lugar inquestionável dentro do sistema educativo?

Hoje, parece clara a intenção do legislador em demarcar o espaço livre e voluntário das actividades de complemento curricular do desporto escolar do espaço “obrigatório” das actividades curriculares da educação física. O sistema educativo acolheu o desporto escolar e integrou-o, dando-lhe a possibilidade de estabelecer relações com outros subsistemas, nomeadamente, no quadro das relações com os clubes e as federações desportivas.

Convém esclarecer que o desporto numa escola cultural cumpre os desígnios dos princípios da heterodeterminação consubstanciados na obrigatoriedade, universalidade e homogeneidade da disciplina de Educação Física. Por outro lado, o desporto na escola cultural não se esgota nas actividades lectivas. O clube do desporto escolar, habitualmente designado de Desporto Escolar, satisfaz os propósitos dos princípios da autodeterminação concretizados na liberdade individual, diferenciação e heterogeneidade das actividades extralectivas. É o espaço pedagógico privilegiado para proporcionar aos alunos a satisfação das suas exigências de realização pessoal consolidadas na prática desportiva de acordo com as suas particularidades vocacionais.

Sendo o desporto uma prática voluntária, não é indiferente o modelo por que se orienta. Recorro ao trabalho de Kirk e Goreli (2000) para questionar a validade e coerência do modelo piramidal como único edifício caracterizador da prática desportiva. Para estes autores, a selectividade e a exclusão aparecem como resultado de um percurso ascensional, com uma lógica clara: consagrar o(s) melhor(es); isto é, atingir o ponto mais elevado dentro deste edifício. Os esforços para o alargamento da base justificam-se pela presunção de uma melhoria no topo. Este modelo apresenta apenas dois patamares no desporto para os mais jovens: os que continuam ligados à prática e os que abandonam o sistema.

Curiosamente, as entidades que definem as suas políticas de desenvolvimento desportivo que assentam neste tipo de modelo lamentam a exclusão dos jovens da prática desportiva quando é o próprio sistema que fomenta esse abandono. O enquadramento do desporto na escola, terá sempre de decompor o modelo piramidal como único organizador da prática desportiva. “Um modelo alternativo à figura da pirâmide não cairá no logro de pretender banir o desporto de alto rendimento” (Graça, 2003:2) porque este será sempre o referencial orientador de uma determinada prática. Um desporto que procura chegar a todos “requer a coexistência de uma pluralidade de paradigmas, capazes de enquadrar e fomentar um desporto radicalmente plural” (Ibidem: 3).

Não é este o sentido dos discursos políticos que procuram projectar o desporto para o futuro. Bem pelo contrário. O reforço da elitização do desporto acompanha a onda neoliberal que nos governa. Afinal, temos razões de sobra para nos preocuparmos. Para já urge ampliar a discussão em torno do desporto escolar e reclamar a emergência de um modelo que acompanhe a mudança – não só a mudança que deve ser procurada no contexto social mais geral, como a mudança que se configura num desporto plural. É esse o grande desafio.

publicado por Miguel Pinto às 11:10
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