Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2004

Reinventar/reformar o sistema educativo – Um comentário ao texto de JPS

Quero desde já esclarecer que é para mim um privilégio poder partilhar o espaço de discussão com personalidades como o José Paulo Serralheiro (JPS). Em certa medida sinto-me responsável pela sua reinvestida na temática da reforma ou reformulação do sistema educativo, como sugere o seu post transcrevendo a minha pequena “provocação”.

Proponho-me a comentar o seu texto – Utopias: reformamos ou reinventamos o sistema educativo? - porque estou imbuído de uma vontade de aprender com os outros e crescer com as suas experiência contadas, respeitar a forma como as pessoas se situam no mundo e na vida e irei evitar a instrumentalização da desmontagem dos seus discursos. É assim que eu gostaria de ser compreendido.

No último post, JPS aclarou algumas das suas utopias, e falo no plural porque se percebe uma quimera de cariz social donde emerge uma outra – a reinvenção do sistema educativo que toma como quadro de referência a afirmação do axioma: “de cada um segundo as suas capacidades e a cada um segundo as suas necessidades.” As questões enunciadas vão, paulatinamente, abrindo caminho à inevitabilidade da reinvenção dos sistemas educativos.

Se é verdade que é para os fins que tudo se ordena, o único sentido dos meios é serem a condição para a realização dos fins. É aqui que me encontro em sintonia com JPS. Ambiciono, mesmo que o tempo não me deixe lá chegar, uma sociedade humanista e personalista para o séc. XXI. A sua utopia também é minha.

Contudo, é na ordem dos meios que divergimos. JPS considera que sendo a escola um componente da sociedade, não um motor, será esta a mudar aquela. Isto é, será a sociedade a mudar a escola e não o inverso. Ora, sendo a Escola um microcosmos da sociedade não vejo qualquer incongruência se tentarmos mudar o rumo da sociedade a partir de um dos seus componentes – a escola. Aliás, é este o desafio que JPS propõe: que a reinvenção do sistema educativo não sendo obra da superestrutura da sociedade terá de ser um movimento que se ordena de baixo para cima de dentro para fora. Se o papel da educação é, exactamente, o de situar o homem no seu tempo, nos seus problemas e necessidades, a educação tende, assim, para uma desocultação progressiva do homem face a si mesmo e face à realidade que o inclui e transcende (Bento et al., 1999). Educar é obviamente modificar e adquirir novos modos de ser, para ser mais e melhor. A educação em geral e a escola em particular não se coibirá de participar nesta aventura de mudar o mundo.

Um aspecto que me agrada enfatizar é a sua ideia do movimento da globalização. Parece-me interessante que esse movimento comece em cada um de nós. Vejo este movimento como uma espécie de onda em espiral. Pelas palavras de JPS, será um movimento de dentro para fora das pessoas, depois dos grupos das comunidades, das regiões, dos continentes, do mundo. É neste devaneio que emprego a minha energia. É por acreditar que a mudança é suscitada pelo reforço da identidade de cada um de nós que procuro discernir os obstáculos que a retardam. Não tenho certeza se a crise que caracteriza os sistemas económico, cultural, social, jurídico e político causará a falência destes sistemas. Vejo nas crises elementos de desenvolvimento. Principalmente se as crises forem susceptíveis se configurarem por estados de equilíbrio instável. O tal equilíbrio que determina a inovação. Mas, esta crise em que a humanidade está mergulhada é uma crise global do humano. É esta a raiz da crise da Escola.

O diagnóstico do “mal-estar” educativo suscitado pelo avanço das políticas neoliberais na educação é, na minha humilde perspectiva, correcto. E uma das consequências desta incursão é a transferência da “culpa” da educação para as Escolas e para os professores. JPS chama a este fenómeno a rentabilização política dos professores.

E mais não digo porque endereço uma passagem pelo texto que suscitou este breve apontamento. Vale a pena ler, pensar e inquietar-se.

publicado por Miguel Pinto às 15:47
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2 comentários:
De Miguel Pinto a 5 de Fevereiro de 2004 às 19:25
Tens razão, admito não ter deixado clara a relação recíproca entre a escola e a sociedade.
Obrigado pelo comentário.
De iguel Sousa a 5 de Fevereiro de 2004 às 12:35
Caro amigo, é com agrado que vejop a tua retoma relativamente à reflexão da escola, em termos do blog, contudo gostaria deixar claro a minha opinião acerca da direcção da mudança social, aí sugeria uma reflexão no sentido de uma direcção...com dois sentidos, ou seja a escola como facto de mudança da sociedade, e a sociedade como macro sistema que inclui a escola, tambêm influindo e mudando a escola. Até porque, pelas conversas que temos fiquei com a sensação de ser isso o que defendes....aqule abraço

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