Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2004

Passo a passo em direcção à Escola Cultural (IV)

Uma aproximação à formação contínua

 Tem sido muito pausada a minha aproximação ao problema da formação contínua de professores. Em três anos Portugal gastou 110 milhões de euros em acções de formação de docentes. Num país em que os problemas são relevantes a partir do momento em que desembocam no domínio financeiro, este dado seria suficiente para provocar uma discussão generalizada. Emergiria com naturalidade a seguinte questão: O dinheiro foi bem ou mal aplicado?
Não pretendo com isto tornar irrelevante a necessidade de prestação de contas e considerar a gestão dos dinheiros públicos um assunto desprezível. Bem pelo contrário. Numa conjuntura em que os recursos escasseiam aumenta a responsabilidade de que tem que gerir a “coisa” pública. Só é admissível um destino. O bom uso (nesta matéria a demagogia dos dirigentes políticos tem feito escola). Por favor, não me perguntem para já o que é isto do bom uso dos dinheiros públicos porque eu não sei responder. Mas prometo que vou procurar a resposta.
Contudo, não será esta a razão principal que me conduz à formação contínua.

Como em educação tudo é um meio para um fim: o acto educativo, a formação inicial e a formação contínua procuram, cada uma no seu tempo, equipar o professor com as ferramentas necessárias para que o acontecimento educativo se transforme num acto de excelência.
No post anterior fiz referência a três perspectivas que me ajudaram a clarificar o posicionamento dos professores perante as inovações curriculares. Agora impõe-se determinar a influência de três tipos de socialização nos professores empenhados na inovação. Num outro momento tratarei da formação contínua propriamente dita.
Recorro à teoria de socialização ocupacional de Lawson (1986) que considera a existência de três tipos de socialização nos professores de Educação Física. Salvaguardando a especificidade desta disciplina não forçarei qualquer paralelismo com outra área. Contudo, não rejeitarei eventuais correspondências.
A aculturação é um processo que começa no nascimento e tem uma influência profunda nos professores de Educação Física, muito tempo antes da sua formação inicial. O entendimento do que significa ser professor de educação física é desenvolvido com as interacções de experiências significativas desde a infância. Neste processo, assumem uma importância particular as observações e as experiências dos professores em geral e de educação física e de desporto em particular, juntamente com suas interacções com os outros adultos responsáveis pelo treino desportivo e actividade física.
A socialização profissional consiste na influência da formação inicial e contínua de professores e é definida por Lawson (1986) como "o processo pelo qual os professores adquirem e mantêm os valores, as sensibilidades, as habilidades, e os conhecimentos que são julgados ideais para a educação física que ensinam". Os dados empíricos sugerem que o impacto da socialização profissional é relativamente fraco quando comparado com a aculturação. Entretanto, a formação inicial de professores é, provavelmente, a maior influência quando existe uma concordância entre a “Universidade”, a ideologia profissional e “uma cultura técnica compartilhada” (isto é, os conhecimentos e as habilidades requeridas para o ensino da educação física).
A socialização organizacional é definida como “o processo em que cada um aprenderá um papel organizacional particular”. Nos casos onde a socialização profissional envolveu uma tentativa de inovar e teve pouco impacto, as habilidades e os conhecimentos aprendidos durante a formação inicial de professores são, provavelmente, muito aligeiradas. É um processo que é referido como “um efeito de esmorecimento”.
Finalmente, Lawson notou que os factores específicos do local de trabalho poderiam restringir os novos professores e as suas ideias inovadoras. O autor sugeriu que as escolas em que a socialização dos novos professores era colegial (com outros novos professores), sequencial (ocorrendo através de uma ordem planeada), variável (não ocorrendo num período fixo), asseguravam a inovação. Em contraste, nas escolas em que a socialização dos novos professores era individual, aleatória (sem nenhuma ordem particular), informal, disjuntiva (não envolvendo um mentor) e alinhada (as ideias e habilidades novas eram bem acolhidas) não promoveriam a mudança.

Considero agora, que é possível encarar o problema da formação contínua com mais segurança.

publicado por Miguel Pinto às 09:21
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