Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2004

Passo a passo em direcção à Escola Cultural (III)

Mudanças superficiais e mudanças reais

A mudança tem sido a palavra mais usada desde que aqui cheguei. E não o fiz porque se trata de uma moda. A mudança é o termo mais indicado para traduzir o equilíbrio instável em que temos de estar para impulsionar a inovação. Sendo a inovação uma mudança intencional há que ter em conta não só as intenções como as necessárias condições. É a relevância deste movimento evolutivo no desenvolvimento profissional do professor que justifica esta minha insistência.

A pergunta mudar para quê (?) deixará de fazer sentido a partir do momento em que assumimos que a mudança é um imperativo ético. Mudamos para sermos mais e melhores.

Volto à questão inicial reconfigurada. Num momento em que se procuram introduzir alterações curriculares como é que os professores se posicionam neste quadro de mudança?

Recorrerei a Sparkes (1991) porque o autor identificou três perspectivas (tecnológica, ecológica e cultural) que nos ajudam a perceber o impacto das reformulações do currículo nas práticas dos professores. Considera que as mudanças superficiais (o uso de novos materiais curriculares por exemplo) são fáceis de induzir, enquanto que as tentativas de mudar as práticas dos professores já serão, provavelmente, menos bem sucedidas. Isto é, as mudanças de opinião, de perspectivas e valores são extremamente difíceis de accionar. É a dimensão que Sparkes designa de mudança real. As mudanças que ocorrem nas práticas dos professores não implicam, necessariamente, um questionamento dessas práticas ou uma alteração das suas ideologias e opiniões acerca das práticas educacionais. Mas quando discutimos a mudança real, uma dimensão chave a considerar será a transformação da opinião, dos valores e das ideologias que sustentam as suposições e práticas pedagógicas dos professores.

A perspectiva tecnológica focaliza a mudança do conteúdo que se reflecte nas mudanças operadas nos alunos. Frequentemente, as tentativas tecnológicas de mudança são iniciativas em grande escala, projectadas por equipas de peritos de um nível de ensino mais elevado ou dos gabinetes governamentais. O Currículo Nacional é um bom exemplo deste tipo de inovação.
Estas tentativas centralizadas de mudança têm sido criticadas dentro de alguns círculos porque suscitam mudanças a um nível superficial. Contudo, a adopção do novo currículo pelos professores talvez seja a primeira etapa e ela é necessária, porque se considera uma pré-condição para a mudança real. Esta primeira etapa poderá ser ou não ultrapassada após a percepção da sua própria “competência”. Um currículo não será adoptado enquanto o professor não se sentir capaz de corresponder às exigências subjacentes a esse decisão.

Na perspectiva ecológica, a mudança ou a falta dela, após uma alteração curricular, é explicada pelas eventuais escolhas políticas, pelas estruturas organizacionais e pelas circunstâncias em que os professores trabalham. Referimo-nos à ausência ou à presença de “constrangimentos situacionais”, como turmas grandes, a escassez ou falta de instalações e equipamentos.

Ao tentar examinar os efeitos das inovações no currículo, a partir de uma perspectiva cultural, este autor dirigiu a sua atenção para o ‘que o professor pensa, acredita, e presume. Segundo esta perspectiva, os professores que são muito resistentes à mudança usam frequentemente “a retórica estratégica”. Isto é, a mudança que os professores dizem ter ocorrido após a alteração dos programas não se verifica nas suas práticas.

Contudo, são as mudanças reais que me interessam. È para aí que irá o meu olhar.

publicado por Miguel Pinto às 12:01
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2 comentários:
De miguel o sousa a 21 de Janeiro de 2004 às 19:35
de facto pode-se fazer resistência das duas maneiras, e quicá de outras que não estou no momento aver...mas uma coisa écerta só vale a pena resistir se for para construir...e isso não se faz passivamente
De whiteball a 21 de Janeiro de 2004 às 12:27
Como sabe os professores podem fazer frente á inovação através de "resistência passiva", ou então resistência aberta e declarada! Sempre assim foi e olhe que lhe falo através destes meus 19 anos de docência...

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