Sábado, 17 de Janeiro de 2004

Olhar dirigido ao post de José Paulo Serralheiro.

O post de JPS será mais um pretexto para reflectir sobre a Escola e o seu futuro. Ninguém ficará inquieto ou considerará uma heresia o facto de estarmos ou não em desacordo, até porque sabemos que a representação da realidade depende do olhar com que se olha. Se por um lado, olhar a realidade na 3ª pessoa difere de um olhar a partir da 1ª pessoa, por outro, o nosso olhar separado pelo tempo captará outra realidade.

Entrando de imediato no assunto, concordo na globalidade com o que escreveu JPS. Essencialmente no que concerne ao diagnóstico. Assistimos impávidos à falência do sistema educativo que não foi capaz de acompanhar o ritmo das convulsões sociais, que foi construído para responder a outras necessidades e a sua degradação prossegue, aparentemente, imparável. Embora o JPS reconheça que muita coisa mudou, considera que já não há lugar para reformas, porque os sistemas educativos tradicionais já não são reformáveis. E é neste último aspecto que divergimos. Creio que ainda há um caminho que pode ser percorrido, direi que deve ser percorrido já que foi interrompido abruptamente quando os resultados produzidos exigiam a sua continuidade. De forma paradoxal, num sistema educativo que parece desajustado no tempo, marcado pela mudança do conhecimento e por uma mudança na hierarquia de valores, urge retomar o paradigma pedagógico que foi proposto pela Comissão da Reforma do Sistema Educativo a que se deu o nome de Escola Cultural e mudar a escola. Porquê? Talvez porque seja a solução mais exequível para os fins que se ambicionam. Não vejo qualquer incongruência entre as ideias basilares desenhadas no “seu” Manifesto e os pressupostos para a regeneração da Escola Cultural. Considero que é consensual a ideia de que a Educação tem cada vez mais que olhar para o contexto, onde se insere, não ficar indiferente aos valores correntes, devendo adaptar-se às novas realidades de uma forma pró-activa, interveniente, transformadora, tomando os jovens com os seus valores como quadro de referência, centrando neles os objectivos da sua reflexão. Com este sistema educativo ou com uma reconfiguração do actual sistema, a Escola Cultural será uma solução para os problemas resultantes da pós-modernidade.

Quando a discussão recai nos desafios que se colocam actualmente aos sindicatos, é aceitável a opinião de que a grandeza dos sindicatos depende da elevação das pessoas que os formam e que lhes dão vida. Parece-me claro que os espaços sindicais devem ser plurais de ideias e que não sejam apêndices do poder estabelecido. E que a sua força será aquela que o nosso colectivo quiser. Na anterior discussão, eu vacilei quanto à imprescindibilidade de uma reforma ou de uma reconfiguração do sistema educativo quando fui confrontado com a força dos argumentos. Disse que da minha percepção da realidade emergiam soluções algo ambíguas. Já no que se refere à discussão direccionada para o domínio sindical a minha perspectiva é um pouco mais clara. A argumentação utilizada por JPS que sustenta a reconfiguração do sistema educativo serve para a defesa de uma reconfiguração do sistema sindical. É evidente a diminuição da pujança do movimento sindical com a decadência do Estado Moderno. Há sinais que evidenciam a descrença dos professores na capacidade interventora dos sindicatos o que reflecte de alguma forma a degradação da auto-imagem dos professores.

Mas o que me parece essencial é o abandono da tese de que a mudança de atitude, da capacidade crítica e de auto-análise dos professores decorre de qualquer mudança legislativa. Creio que é com base nesse pressuposto que temos assistido a sucessivas orgias legislativas com resultados inócuos.

publicado por Miguel Pinto às 21:07
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