Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2004

Os acólitos

No post Olhar o poder falava da colaboração. Dizia que as lutas do poder nas escolas adoptam configurações muitos diversas e que só com alguma desatenção não se aclara a lógica, ou a falta dela, das decisões de órgãos colegiais na escola. Considerava que a procura desvairada de uma posição privilegiada junto dos seus pares por um lado, e a manutenção do poder discricionário por outro, suscitava em diversos actores da comunidade educativa reacções e estratégias mais ou menos intrincadas.

Entramos no domínio mais perverso da escola. Aquele em que se refugia o corporativismo bacoco. Não creio que as instituições que cultivam o individualismo e a balcanização do ensino estejam, à priori, imunes a esta praga que designamos de acólitos. Serão, talvez, mais susceptíveis de promover este contra-senso do ensino. O enquadramento deste fenómeno terá de ser feito a partir de um quadro onde se inverte a lógica do serviço que a escola presta aos alunos e à comunidade. É esta a justificação deste texto.

Ora, são precisamente os acólitos que procuram desenfreadamente assegurar a manutenção do poder nas escolas. Minoritários em número, acabam por desempenhar um conjunto de funções que algumas direcções executivas não prescindem.
Há várias versões de acólitos mas a ideologia é a mesma. Camuflar os “rabos-de-palha” suscitados por erros de gestão, jurar vassalagem e, como moeda de troca, cobiçar os “jeitos” sistemáticos e as benesses eternas. É a cultura da cunha. Para que não restem dúvidas, os acólitos não desejam equidade, prescindem da liberdade intelectual e receiam a perda de confiança do poder que ajudaram a conquistar. Alguns desaparecem quando são desmascarados. Não acreditando na cultura de colaboração, desconfiam da inovação. Através de um pacto de regime, silencioso ou declarado, o clube dos acólitos congrega vários tipos de docentes e não docentes. São fundamentais na gestão dos conflitos internos nas escolas. Amortecem as críticas firmadas, impulsionam a intriga para tomar o pulso da contestação e impedem a inovação. Rejeitam a mudança, sobretudo, a que suscitar a modificação do “modus vivendi” instalado.

Há vários tipos de acólitos e agregam-se numa espécie de oligarquia.
Os irritados criticam as pequenas falhas de organização, são intolerantes com os alunos e colegas, principalmente, com os mais novos. Crêem na sua coragem consubstanciada numa critica ligeira, disfarçada, que ninguém leva a sério.

Os trabalhadores andam sempre atarefados, azedos e nunca erram. Isto é, raramente assumem o erro, o engano, o descuido, a falha. São os super-profissionais.

Os calados não têm opinião, apresentam-se descomprometidos com a escola. São insuspeitos, são os desejados porque não “complicam”. São os ouvidos que as paredes escondem.

Os estrategas preocupam-se com o clima da escola e com as pessoas, mas o que lhes realmente lhes interessa é a conjuntura. Se pressentem sinais de um eventual contra-poder tornam-se visíveis, actuam concertadamente e, com muita facilidade, mobilizam um batalhão de fiéis seguidores. São implacáveis na retaliação.

Os anónimos diferem dos calados porque não têm a capacidade de discernir o seu grau de influência. Fazem qualquer coisa para agradar ao poder instalado e anseiam subir na escala de influência.

Raramente os acólitos aparecem no seu estado puro. São híbridos e multifacetados. São pessoas. E como todas as pessoas procuram a sua transcendência. O problema é que o sentido que quiseram dar à vida perdeu-se no sentido que deram às coisas.

Receio que este texto possa reflectir uma visão pessimista do ensino. Que se façam generalizações abusivas. Que não se atenda à amplitude dos conceitos. Mas é um risco que vale a pena correr porque se trata de fazer regressar os valores à Escola, num tempo em que o quadro axiológico da sociedade carece de estabilidade.

publicado por Miguel Pinto às 10:01
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1 comentário:
De tbp a 15 de Janeiro de 2004 às 10:15
e se os acólitos estivessem só na escola... e dentro desta, apenas do lado dos professores...

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