Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2004

Olhar as NEE

Há já alguns dias que as “Necessidades Educativas Especiais” são notícia. Aguarda-se a nova legislação que regulamenta os apoios especiais. Por esse facto, tenho assistido serenamente às movimentações habituais. Aparece o ministro e a carta na manga, relatam os órgãos de comunicação social. Depois vêem as reacções, dos especialistas, associações profissionais e demais interessados. E ainda bem, dizem alguns incautos que pressentem neste reparo uma afronta partidária. Alegam mesmo que estas encenações só acontecem num Estado Democrático. Eu acredito. Outros desconfiados dos efeitos das políticas neoliberais na educação, dirão que é a estratégia de sempre que visa o assalto ao discurso do senso comum. Não discordo.

Centro-me agora na notícia e aproveito para ler as entrevistas do Ministro da Educação e da professora Luísa Panaças (ESEP). Percebi que na perspectiva do Governo, o critério economicista prevalece na reconceptualização das NEE. O discurso da eficiência sustenta que esta nova política não se traduz necessariamente no aumento da despesa. Para o ministro há "recursos mais do que suficientes, mas mal aproveitados e os professores não têm sabido lidar com a diferença". Vejo, sem estranheza, a transferência da culpa para os professores, para as escolas.

Da entrevista à especialista na Área das Necessidades Educativas Especiais destaco alguns excertos que merecerão futuras abordagens. Aproveito para realizar alguns reparos. Disse que a legislação não é um factor fundamental para o sucesso dos apoios educativos. Tem havido, de facto, uma orgia legislativa dos diversos governos sustentada na crença da eficácia de um modelo de tipo piramidal. Também penso que o êxito dos apoios, como o sucesso das políticas depende das dinâmicas imprimidas pelas próprias escolas/agrupamentos de escolas. Disse ainda que a grande maioria dos professores do ensino regular não está preparado para encarar e saber trabalhar com a diferença. A professora vai mais longe e diz que temos ainda professores a ser formados para lidar com alunos medianos, com quem se pode trabalhar ao mesmo ritmo. Tudo leva acrer que ainda não nos livramos das marcas da escola unidimensional. Ela está aí, ainda exuberante. Subscrevo que as próprias equipas directivas das escolas e as culturas de colaboração dos docentes são factores decisivos para a adequação da resposta dos professores nesta área.

Acrescentarei que este é o cerne da questão e que suscita um olhar para a escola, para a escola situada. Considero ainda que há que renovar os argumentos a favor da escola inclusiva. Enfatizar a escola personalista de matriz humanista. Fazer regressar a Escola Cultural. É assim que eu olho o futuro.

publicado por Miguel Pinto às 12:37
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1 comentário:
De Jos Manuel Faria a 14 de Janeiro de 2004 às 19:23
O texto tem qualidade, mas como te tenho dito deves ir mais longe. Publica-o noutros órgãos.

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