Sábado, 10 de Janeiro de 2004

A singularidade da Escola vivida.

A Escola deixou de ser aceite como um referencial de verdade, viu destruída a sua autoridade moral e desgastado o prestígio da função docente. Confrontada com a indústria do audiovisual e com os meios de comunicação de massas, a Escola perdeu não só a exclusividade da transmissão da cultura em geral e da ciência em particular, como foi ultrapassada em termos de eficácia por esses meios. Sem autoridade e sem o exclusivo, ou sequer o melhor desempenho na transmissão do saber, parece pertinente perguntar, qual o papel da Escola?

A sociedade portuguesa alimenta uma desconfiança em relação à escola, criticando-a com razão e sem ela. As sondagens da opinião pública confirmam a tendência em pedir à escola tarefas de enquadramento das crianças e jovens. As políticas educativas podem ser as melhores, mas de que servem se os pais, autarcas, professores e alunos não se responsabilizarem pelo seu trabalho. A escola pode muito mas não pode tudo.

Afonso (2002) relembra que, embora os discursos sobre a crise da educação escolar sejam tão antigos como a própria Escola, os factores supostamente geradores da actual crise são hoje mais amplos e heterogéneos. A crise da educação escolar não pode ser compreendida sem levar em consideração os seguintes factos:
 As condições actuais de expansão e internacionalização da economia capitalista;
 A emergência do “capitalismo informacional”, as mutações aceleradas das novas formas de organização do trabalho e a inevitabilidade do desemprego estrutural, a afectar, sobretudo, as novas gerações;
 A permeabilidade e a vulnerabilidade da Escola às pressões sociais – que permitem que a Escola aceite ser o “bode expiatório” para as crises económicas cada vez mais frequentes;
 Os discursos que induzem os cidadãos a pensar que a falta de emprego é devida à não qualificação dos indivíduos e que a Escola é incapaz de preparar os estudantes para as supostas necessidades da economia;
 A perda de confiança no valor social dos diplomas, induzidas pelas distorções nas relações entre educação e o mercado de trabalho;
 A centralidade dos meios de massa que se constituem como fortes agentes de educação secundária, substituindo os agentes e contextos de sociabilização primária;
 A constatação em trabalhos recentes de que a Escola, não sendo capaz de cumprir cabalmente os mandatos que há muito lhe foram atribuídos, continua a ser pressionada a assumir novos mandatos, à medida que os problemas sociais aumentam;
 A emergência de um movimento anti-escola, que se expressa pela existência de movimento de ensino em contexto familiar.
No entanto, se é verdade que os novos lugares da educação (não-formal e informal) se originaram em fenómenos que têm pouco a ver com a crise da Escola, eles poderão acentuar e aprofundar essa mesma crise, sobretudo se esses lugares forem ocupados e controlados por interesses económicos dominantes, a nível nacional e internacional.
Emerge por isso a necessidade de reflectirmos sobre os dilemas e desafios futuros, que derivam do facto da educação não-escolar ser hoje disputada por muitos interesses e contraditórias racionalidades políticas e pedagógicas.

O quadro instável caracterizador da sociedade pós-moderna acentua ainda mais a pluralidade de representações sociais que desperta a educação. É evidente a dificuldade em propor um sistema educativo que a todos satisfaça.
Mas cuidado. Ao enfatizarmos a importância dos factores exógenos geradores da crise da escola podemos estar a limitar, perversamente, a eficácia da nossa acção. A crença de que somos demasiado pequenos para influenciar o rumo da sociedade poderá amortecer o entusiasmo com que encaramos a nossa função. Corremos o risco de perdermos de vista os objectivos e sentidos que conferem sentido à educação: A fundamentação da democracia; O estímulo ao desenvolvimento da personalidade do sujeito; A difusão e incremento do conhecimento e da cultura em geral; A inserção dos sujeitos no mundo; A custódia dos mais jovens (que tem sido prolongada com o alargamento da escolaridade obrigatória).

Obviamente, que perante um leque tão alargado e até contraditório de fins, os professores tem necessidade de procurar conteúdos que perseguem estas finalidades e nessa procura encontrar incongruências, entre o que defende o currículo oficial e o que pedem as autoridades educativas, as urgências dos pais e os valores dominantes da sociedade, os princípios da própria ética pessoal e a forma de entender as necessidades dos alunos,... (Sacristán, 2000).
É esta diversidade de fins, esta possibilidade de encontrarmos perspectivas de pensar em acção tão diferentes, esta polivalência de culturas que obriga a escola a ter de se tornar cada vez mais flexível. No fundo será essa a singularidade da escola vivida.
publicado por Miguel Pinto às 16:53
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