Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2004

Identidade profissional em crise

Há momentos em que somos obrigados a abdicar da discussão mais genérica, provavelmente mais participada, e partir para uma reflexão partilhada por um grupo, porventura, mais restrito. Sacudidos por uma espécie de mecanismo de alerta saímos em defesa da nossa identidade profissional. A relevância social da Educação Física e do Desporto assim o obriga e os alunos ainda mais.

Mas esta incursão fará mais sentido se ela for capaz de suscitar o interesse de outras pessoas. Gente que é capaz de olhar para a educação a partir de uma perspectiva multidimensional. Que não sendo especialista nesta área de conhecimento é capaz de olhar para os problemas da educação tendo como quadro de referência a pessoa que é o aluno.

Mas, não será esta agitação descabida?
Creio que não.

A reorganização curricular do ensino básico e, mais recentemente, a reorganização curricular do ensino secundário tocou em algumas feridas que nunca chegaram a cicatrizar. Não se trata de qualquer fervor corporativo impulsionado por sentimentos de vencedor ou perdedor. Portanto, não estou preocupado se o estatuto dos professores da minha área disciplinar decresce ou melhora.

A questão central é que há uma redução da carga horária semanal na disciplina de Educação Física no ensino básico e secundário quando é consensual para os especialistas nesta área disciplinar que a actividade física dos alunos na escola é insuficiente para as suas necessidades. Por outro lado, tocam os sinos a rebate quando os estudos nacionais e internacionais alertam para os problemas cada vez mais preocupantes da obesidade e excesso de peso da população infanto-juvenil.

Nós assobiamos e olhamos para o lado disfarçadamente.

Por essa razão, creio que teremos de voltar às questões antigas porque ainda são actuais. A legitimação escolar da disciplina de Educação Física passa por explicitar a sua incumbência educativa. Pühse (citado por Bento, 1999:65) sugere que devemos recorrer a um conjunto de perspectivas, nomeadamente:

Uma fundamentação antropológica que acentue a relevância do domínio motor e corporal para um conceito integral de educação na escola;

O significado do desporto na vida social e individual, justificando plenamente a necessidade de preparar as crianças e jovens para intervirem neste sector;

Acentuação das potencialidades específicas que o desporto encerra para corresponder às necessidades de formação, educação, desenvolvimento da identidade e autoconceito dos adolescentes.

Decorre a partir destas considerações, que o argumento central a favor da presença da Educação Física e do desporto dentro do conjunto das disciplinas escolares é o facto de ser a única disciplina que visa preferencialmente a corporalidade. Podem ser enunciados outros argumentos que justificam as vantagens da sua presença ou as desvantagens da sua ausência na escola, nomeadamente: a compensação dos aspectos negativos inerentes às outras disciplinas e à organização escolar; a necessidade de aprender desporto na escola para poder participar fora dela; o desenvolvimento da personalidade e da capacidade de rendimento geral, da saúde e do bem-estar; a aquisição de valores do fair-play, do respeito, da consideração e da tolerância; a formação de um estilo de vida que desempenhe uma função relevante, no âmbito de uma estratégia de prevenção de comportamentos desviantes.

Os argumentos são estes. Será que precisamos deles?

publicado por Miguel Pinto às 22:19
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1 comentário:
De whiteball a 9 de Janeiro de 2004 às 12:22
O texto está muito bom. gostei!
Agora, a questão é esta - Na prática, (e mais no secundário)tanto professores como alunos estão é preocupados com as classificações, com os resultados dos exames nacionais, com a entrada no Superior e tudo o resto, infelizmente, é esquecido!
Quanto a mim e depois de 19 anos de serviço, estou a atravessar um momento de crise a nível profissional: toda a dedicação, profissionalismo, empenho estão a ser postos em causa quando a I.G. E. me "bate à porta" e quer F....!

desculpem-me o desabafo!

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