Terça-feira, 6 de Janeiro de 2004

Do Projecto Educativo de Escola ao.....

O Projecto Educativo de Escola (PEE), tornou-se um instrumento essencial para a vida das escolas nas últimas décadas, pelo que dada a sua importância, urge reflectir a sua estrutura e eficácia de maneira a adaptá-lo às novas exigências sentidas pela escola e feitas pela sociedade, tornando-o cada vez mais “utilizável” não só como ferramenta de planeamento da vida escola, mas também como estratégia de fortalecimento da relação escola/sociedade. O ilustre sociólogo português Boaventura Sousa Santos (1994) dá ênfase ao que chama “processos de transformação social muito rápidos e profundos que põem definitivamente as teorias, os conceitos, os modelos e as soluções anteriormente considerados eficazes para diagnosticar e resolver as crises sociais”…ora a crise da escola reflecte a crise social que estamos vivendo, pelo que urge analisar se os instrumentos de planeamento, como é o caso do PEE, estão adequados à escola do presente e quiçá do futuro.

Na verdade, apesar das oscilações e adaptações que o PEE vem sofrendo ao longo dos anos, a sua estrutura mantém-se quase que inalterável, centrando-se numa perspectiva fechada tendo como principal preocupação planear a escola olhando esclusivamente os problemas da mesma…dentro da mesma e que apesar de muitas vezes ser justificado com a necessidade de inovar e fazer face às mudanças sociais - eis um paradoxo difícil de entender - teima em ir para “essa guerra do futuro” com as armas do passado. Não se trata de esquecer conceitos antigos, só pelo simples facto de já terem “barbas brancas”, mas sim questionar se essa forma de pensar e construir o PEE serve aos novos desafios colocados à escola pelo contexto gerada na era “pós-moderna” (que se me permitem, tenho dificuldade em entender o termo…mas a reflexão acerca da pós-modernidade se bem que possa ser pertinente, não me interessa discuti-la agora ).

Apesar de no dia-a-dia haver na escola uma preocupação de preparar o aluno para a vida em comunidade (como que se a escola em si não fosse ela própria um elemento estruturante e estrutural da mesma), mais concretamente para a profissão do “futuro adulto”, (e deixem-me salientar que por vezes a escola esquece-se que de nada serve ter um profissional bem preparado técnicamente mas inócuo de valores e de aptidão nos relacionamentos e nos afectos) a verdade parece ser que a escola continua sendo planeada, no seu essencial para uma vida pouco interactiva com a sociedade civil, daí que um conjunto de problemas teimem em não ser resolvidos, apesar das suas “barbinhas brancas”. Dos muitos problemas a resolver e que o PEE, pouco tem feito por isso gostava de salientar os seguintes:

a) a escola ainda não conseguiu cativar o poder local para intervir no processo educativo dos seus filhos ao nível do planeamento, limitando-se a “sacar” uns apoios mínimos, ao nível dos transportes e outros, ao contrário, as cadeiras destinadas a este poder, nas assembleias de escola, continuam vazias, facto muito grave e com implicações directas para a escola que se vê amputada de um aliado natural e imprescindível.

b) o divórcio entre encarregados de educação e a escola continua na sua pujança máxima tornando-se uma tarefa dantesca para a escola a simples tentativa de os chamar para receber informação dos seus educandos, quanto mais contar com uma participação regular na vida da escola. Esta realidade tem como grande consequência a incoerência interventiva no aluno, criada por formas diferentes de pensar e agir na sua educação (escola versus família).

c) os professores continuam a justificar uma parte do insucesso escolar dos alunos com a falta de pré-requisitos, não só ao nível de conteúdos que já deviam ser adquiridos, mas também ao nível da falta de hábitos de estudo e saber estar na escola. Esta justificação geralmente vem complementada pelo facto dos jovens virem mal preparados dos anos anteriores, sendo que a “culpa continua a ser da anterior escola”. Acabámos por assistir de um sacudir da água do capote para o capote mais baixo (leia-se a universidade culpa a secundária que por sua vez joga para o ensino básico, o básico para a pré, a pré para a família…..).

d) a escola continua a ser vencida pelas actividades paralelas, porque se tornou chata e desinteressante, capaz de aprisionar o aluno numa teia tradicionalista mascarada de radical, e por vezes de escola cultural...imagine-se o paradoxo. Note-se ainda que esta “chatice” que se tornou a escola dá jeito a determinado grupo de colegas que encontram nas explicações, ateliers e outras actividades uma forma de recuperar o poder de compra que vão perdendo com os magros ordenados que recebem (eu também me queixo que recebo pouco....e julgo estar aqui outro assunto a merecer uma reflexão séria, noutra altura).

A este enredo de problemas que a actual e velhinha estrutura de PEE não consegue ajudar a resolver, junta-se a evidente incapacidade de adaptação da escola ao ritmo diabólico com que as sociedades mudam os seus paradigmas, tornando-a uma instituição constantemente desadaptada e incapaz de dar respostas que os jovens precisam e, em alguns casos, procuram.

Acredito que chegou o momento de abrir de vez os portões da escola à comunidade, tornando-a numa matriz de múltipla entrada, capaz de derrubar barreiras e tornar a escola efectivamente democrática e culturalmente interventiva, daí que talvez o trajecto do PEE, tenha que passar pelo PECE (leia-se Projecto Educativo da Comunidade Educativa) e que tentarei dar a minha opinião no próximo momento de reflexão.

Ribeira Grande, ...dia de reis, 2004
Miguel Sousa

publicado por Miguel Pinto às 19:41
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