Sábado, 3 de Janeiro de 2004

Paradoxos... (III)

...de uma Escola que ambiciona ser Cultural.

3. O argumento da falta de condições e de tempo é usado, frequentemente, para legitimar o esmorecimento dos professores, alunos e pessoal não docente no seu trabalho diário. Não se trata de negar o facto de alguns de nós já ter vivido situações confrangedoras que não são dignas da relevância da actividade que desenvolvemos. Todos sabemos o que nos esperam os dias de trabalho sob temperaturas elevadas ou baixas. Se recorrermos à nossa experiência pessoal é possível alegar que não ficamos indiferentes ao ruído gerado pelos alunos e materiais numa aula de Educação Física que se desenvolve num pavilhão desportivo concebido sem observar as variáveis acústicas. Não será muito difícil imaginarmos o estrondo provocado por três turmas em plena actividade desportiva num pavilhão de 40x20 metros. Seria possível recorrer a muitos outros exemplos se necessário. Ora, não é disso que se trata.

Como refere Hargreaves , “por vezes os nossos problemas só começam quando os nossos desejos se concretizam”. A adopção do acréscimo de tempo de “não-aulas” pode ter sido, em certa medida, o resultado da percepção do carácter improvável da sua implementação. “A intensificação do nosso trabalho é o reflexo de que o tempo e o espaço se comprimem cada vez mais no mundo pós-moderno” (Idem: 156). E mais, “embora o tempo, enquanto antídoto para a intensificação, possa fornecer algumas das soluções para os problemas do desenvolvimento dos professores, pode ser igualmente uma fonte de mais problemas” (Ibidem).

Como se viu, a questão do acréscimo do tempo pode suscitar efeitos perversos. Seria um grande equívoco reduzir, indiscriminadamente, o tempo de não-aulas porque existem práticas, certamente reprováveis, de utilização indevida desse tempo. Pelo contrário, é necessário esclarecer a comunidade educativa das vantagens em conceder uma maior creditação horária às actividades extra-curriculares. Por outro lado, há que abandonar o discurso do voluntarismo e da “carolice” dos professores que só contribui para o afastamento de docentes das iniciativas que correspondem a uma verdadeira vocação. Contudo, não será suficiente a intervenção sobre o tempo do professor para transformar um professor curricular num professor cultural. Patrício (1996) esclarece que “são três os âmbitos da acção educativa do professor cultural: a turma, a escola, a comunidade. O professor curricular só trabalha para o primeiro âmbito, que é o de mais limitado diâmetro. O professor cultural trabalha, além disso, para o segundo e o terceiro âmbitos”. Ora, se observamos com alguma acuidade o quadro do nosso quotidiano percebemos aquilo que se espera do professor. Que ele seja, apenas, um bom técnico de ensino, um transmissor do saber e do saber-fazer constituídos. Não é que a competência do professor não seja necessária. Bem pelo contrário. Um professor cultural é um professor científico, prático, técnico, artífice, artista e tecnológico, mas dentro do professor homem-de-pensamento.

Será o professor cultural desejado pelo “poder oficial”? Creio que não. O perfil funcional deste professor obriga-o a analisar criticamente a sua própria actividade profissional. Este professor não se sente bem com a proletarização da função docente. Uma sociedade humana de liberdade, igualdade e fraternidade para todos os homens não será possível com “trabalhadores” do ensino (Patrício, 1997).

publicado por Miguel Pinto às 11:56
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