Sábado, 7 de Fevereiro de 2004

Ordem dos professores? (II)

Apresento a notícia tal e qual ela me apareceu. Não acredito que estas declarações visassem o professorado. Foram dirigidas para um público mais vasto. Mas, o meu destaque vai para a linha argumentativa dos dois responsáveis. Procure as diferenças e as semelhanças.

«Entendemos que a especificidade desta função cabe ter reconhecimento e valia não só a nível do seu estatuto de exercício como ao nível do estatuto de aposentação. É importante que seja definido um quadro deontológico de actuação para os profissionais docentes», afirmou João Grancho à TSF, defendendo que «não pode ser professor quem quer mas quem tem vocação para o efeito».
No lado oposto está a Fenprof, a qual veio já afirmar, através do seu secretário nacional, Augusto Pascoal, a recusa da estrutura sindical à criação de uma Ordem.
Em declarações à TSF, Augusto Pascoal defendeu que «não falta nenhuma ordem para os professores. Os professores têm uma profissão que não se caracteriza pelas profissões que têm ordem. É professor quem tem vocação, quem concorreu a esta profissão, quem está colocado».
Acreditamos na formação contínua, na avaliação que as escolas fazem dos professores e na auto-avaliação dos professores e portanto não há nenhuma razão para uma Ordem dos Professores», concluiu.

publicado por Miguel Pinto às 12:51
link | comentar | favorito

Ordem dos professores? (I)

O diário digital dava conta que a Associação Nacional de Professores (ANP) vai lançar, em todo o país, um inquérito para apurar se a criação de uma Ordem para os professores é do agrado da maioria dos docentes.

Não acredito em consensos nesta, como outras matérias relativas à docência. Seria muito bom que houvesse um esclarecimento profundo sobre o que está em causa. Que os professores pudessem participar activamente na construção do seu futuro. Temo que não seja esse o rumo dos acontecimentos.

publicado por Miguel Pinto às 12:05
link | comentar | favorito
Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2004

Explicações perversas (I)

A escola das explicações comanda a outra escola. E já procurei uma explicação para este problema das explicações. E encontrei várias explicações, todas gratuitas.

Esclareceram-me que os programas são extensos e o tempo é curto! Será que os alunos não têm de estar preparados para os exames nacionais? Há que dar a “matéria” toda! Disseram-me também que nas aulas de apoio (de explicações) muitos alunos não aparecem e que não as aproveitam. E os pais? Será que têm conhecimento que nas escolas também se dão explicações? Gratuitas? Ouvi dizer, já não me lembro quem me disse, que há explicadore(a)s que quando os seus clientes não têm os resultados esperados procuram “sacudir” a água do seu capote para a escola e para os seus concorrentes – os professores da outra escola paralela.
Alguém acredita nestas histórias?

publicado por Miguel Pinto às 22:37
link | comentar | favorito

Professores para quê?

Na Página da Educação de Fevereiro, um artigo do colega Ricardo Vieira da ESE Leiria faz ressurgir um tema pertinente pela sua actualidade – As explicações. Conta uma história de um aluno que durante o ensino básico tinha nota 5 a todas as disciplinas. A entrada deste aluno no secundário coincidiu com a mudança de escola. A história prossegue em direcção à inevitabilidade das explicações. Como refere o colega Ricardo, este menino vive agora, tal como os seus colegas, duas escolas paralelas: uma onde aprende, o centro de explicações; outra onde finge que aprende e onde espera por resultados que não lhe baixem a autoestima, que o situem na escala que sempre conheceu: nota máxima.

A interrogação do Ricardo Vieira é esclarecedora: professores para quê?

publicado por Miguel Pinto às 21:45
link | comentar | favorito

Uma escola pluridimensional reclama um desporto escolar inclusivo

texto do meu amigo Miguel Sousa servirá de antecâmara para a minha reflexão acerca de um dos clubes escolares que vai sobrevivendo aos sucessivos e indetermináveis ajustamentos no sistema educativo – O clube do desporto escolar.

O desporto escolar tem resistido à decapitação progressiva das actividades extracurriculares na escola. Mas, a eventual inércia provocada por registos legais, por vezes, contraditórios, nunca foi suficientemente forte para o aniquilar. Será a sobrevivência do desporto escolar às diferentes orientações das políticas desportivas e educativas um sinal de que atingiu efectivamente um lugar inquestionável dentro do sistema educativo?

Hoje, parece clara a intenção do legislador em demarcar o espaço livre e voluntário das actividades de complemento curricular do desporto escolar do espaço “obrigatório” das actividades curriculares da educação física. O sistema educativo acolheu o desporto escolar e integrou-o, dando-lhe a possibilidade de estabelecer relações com outros subsistemas, nomeadamente, no quadro das relações com os clubes e as federações desportivas.

Convém esclarecer que o desporto numa escola cultural cumpre os desígnios dos princípios da heterodeterminação consubstanciados na obrigatoriedade, universalidade e homogeneidade da disciplina de Educação Física. Por outro lado, o desporto na escola cultural não se esgota nas actividades lectivas. O clube do desporto escolar, habitualmente designado de Desporto Escolar, satisfaz os propósitos dos princípios da autodeterminação concretizados na liberdade individual, diferenciação e heterogeneidade das actividades extralectivas. É o espaço pedagógico privilegiado para proporcionar aos alunos a satisfação das suas exigências de realização pessoal consolidadas na prática desportiva de acordo com as suas particularidades vocacionais.

Sendo o desporto uma prática voluntária, não é indiferente o modelo por que se orienta. Recorro ao trabalho de Kirk e Goreli (2000) para questionar a validade e coerência do modelo piramidal como único edifício caracterizador da prática desportiva. Para estes autores, a selectividade e a exclusão aparecem como resultado de um percurso ascensional, com uma lógica clara: consagrar o(s) melhor(es); isto é, atingir o ponto mais elevado dentro deste edifício. Os esforços para o alargamento da base justificam-se pela presunção de uma melhoria no topo. Este modelo apresenta apenas dois patamares no desporto para os mais jovens: os que continuam ligados à prática e os que abandonam o sistema.

Curiosamente, as entidades que definem as suas políticas de desenvolvimento desportivo que assentam neste tipo de modelo lamentam a exclusão dos jovens da prática desportiva quando é o próprio sistema que fomenta esse abandono. O enquadramento do desporto na escola, terá sempre de decompor o modelo piramidal como único organizador da prática desportiva. “Um modelo alternativo à figura da pirâmide não cairá no logro de pretender banir o desporto de alto rendimento” (Graça, 2003:2) porque este será sempre o referencial orientador de uma determinada prática. Um desporto que procura chegar a todos “requer a coexistência de uma pluralidade de paradigmas, capazes de enquadrar e fomentar um desporto radicalmente plural” (Ibidem: 3).

Não é este o sentido dos discursos políticos que procuram projectar o desporto para o futuro. Bem pelo contrário. O reforço da elitização do desporto acompanha a onda neoliberal que nos governa. Afinal, temos razões de sobra para nos preocuparmos. Para já urge ampliar a discussão em torno do desporto escolar e reclamar a emergência de um modelo que acompanhe a mudança – não só a mudança que deve ser procurada no contexto social mais geral, como a mudança que se configura num desporto plural. É esse o grande desafio.

publicado por Miguel Pinto às 11:10
link | comentar | favorito
Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2004

Contra a arrogância

Numa troca de e-mail com um recém bloguista dei por mim a recordar a alegoria da caverna de Platão. Foi a arrogância e o desprezo pelas opiniões dos outros que se constatam através da leitura de um conjunto de textos que proliferam na blogosfera. Considero que esta minha abordagem a Platão está legitimada.

Os homens presos na caverna pensavam que o mundo era apenas aquilo que se reflectia na parede, sendo que os próprios sons não eram mais que alguns ecos disformes. Só viam e ouviam isso e essa percepção constituía a sua cosmovisão. Quando um homem se liberta, sai da penumbra, vê outros homens, outras coisas, outros sons, em especial o som da palavra, e vê a luz, constata que afinal o mundo é algo de diferente. Depois quis voltar à caverna para dar a boa nova aos seus amigos prisioneiros. Estes, ao serem confrontados com "verdade" que lhes destruía as suas certezas, tiveram medo, pois sentiram uma ruptura com a estabilidade existencial proporcionada pelo conforto da caverna. Assim, rejeitaram a novidade, quase matando o portador da boa nova.

publicado por Miguel Pinto às 20:04
link | comentar | favorito
Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2004

Reinventar/reformar o sistema educativo – Um comentário ao texto de JPS

Quero desde já esclarecer que é para mim um privilégio poder partilhar o espaço de discussão com personalidades como o José Paulo Serralheiro (JPS). Em certa medida sinto-me responsável pela sua reinvestida na temática da reforma ou reformulação do sistema educativo, como sugere o seu post transcrevendo a minha pequena “provocação”.

Proponho-me a comentar o seu texto – Utopias: reformamos ou reinventamos o sistema educativo? - porque estou imbuído de uma vontade de aprender com os outros e crescer com as suas experiência contadas, respeitar a forma como as pessoas se situam no mundo e na vida e irei evitar a instrumentalização da desmontagem dos seus discursos. É assim que eu gostaria de ser compreendido.

No último post, JPS aclarou algumas das suas utopias, e falo no plural porque se percebe uma quimera de cariz social donde emerge uma outra – a reinvenção do sistema educativo que toma como quadro de referência a afirmação do axioma: “de cada um segundo as suas capacidades e a cada um segundo as suas necessidades.” As questões enunciadas vão, paulatinamente, abrindo caminho à inevitabilidade da reinvenção dos sistemas educativos.

Se é verdade que é para os fins que tudo se ordena, o único sentido dos meios é serem a condição para a realização dos fins. É aqui que me encontro em sintonia com JPS. Ambiciono, mesmo que o tempo não me deixe lá chegar, uma sociedade humanista e personalista para o séc. XXI. A sua utopia também é minha.

Contudo, é na ordem dos meios que divergimos. JPS considera que sendo a escola um componente da sociedade, não um motor, será esta a mudar aquela. Isto é, será a sociedade a mudar a escola e não o inverso. Ora, sendo a Escola um microcosmos da sociedade não vejo qualquer incongruência se tentarmos mudar o rumo da sociedade a partir de um dos seus componentes – a escola. Aliás, é este o desafio que JPS propõe: que a reinvenção do sistema educativo não sendo obra da superestrutura da sociedade terá de ser um movimento que se ordena de baixo para cima de dentro para fora. Se o papel da educação é, exactamente, o de situar o homem no seu tempo, nos seus problemas e necessidades, a educação tende, assim, para uma desocultação progressiva do homem face a si mesmo e face à realidade que o inclui e transcende (Bento et al., 1999). Educar é obviamente modificar e adquirir novos modos de ser, para ser mais e melhor. A educação em geral e a escola em particular não se coibirá de participar nesta aventura de mudar o mundo.

Um aspecto que me agrada enfatizar é a sua ideia do movimento da globalização. Parece-me interessante que esse movimento comece em cada um de nós. Vejo este movimento como uma espécie de onda em espiral. Pelas palavras de JPS, será um movimento de dentro para fora das pessoas, depois dos grupos das comunidades, das regiões, dos continentes, do mundo. É neste devaneio que emprego a minha energia. É por acreditar que a mudança é suscitada pelo reforço da identidade de cada um de nós que procuro discernir os obstáculos que a retardam. Não tenho certeza se a crise que caracteriza os sistemas económico, cultural, social, jurídico e político causará a falência destes sistemas. Vejo nas crises elementos de desenvolvimento. Principalmente se as crises forem susceptíveis se configurarem por estados de equilíbrio instável. O tal equilíbrio que determina a inovação. Mas, esta crise em que a humanidade está mergulhada é uma crise global do humano. É esta a raiz da crise da Escola.

O diagnóstico do “mal-estar” educativo suscitado pelo avanço das políticas neoliberais na educação é, na minha humilde perspectiva, correcto. E uma das consequências desta incursão é a transferência da “culpa” da educação para as Escolas e para os professores. JPS chama a este fenómeno a rentabilização política dos professores.

E mais não digo porque endereço uma passagem pelo texto que suscitou este breve apontamento. Vale a pena ler, pensar e inquietar-se.

publicado por Miguel Pinto às 15:47
link | comentar | ver comentários (2) | favorito
Domingo, 1 de Fevereiro de 2004

Reacções à crítica e à falta dela

É curiosa a forma como reagimos aos ataques à crise da Escola, ao “modus vivendi” instalado e aos efeitos perversos que a praga de acólitos induz no sistema educativo.

Com muita facilidade, encontramos na falta de preparação teórica dos críticos, muitos deles oriundos da comunicação social ou outros que emergem do interior das próprias escolas, um poderoso argumento que é utilizado para desconsiderar a diferença de opinião, reduzindo e circunscrevendo a discussão a um leque reduzido de “iluminados” que, esses sim, por conhecerem os “verdadeiros” problemas da educação estão habilitados a avançar com as soluções milagrosas.

Considero que esta via não transformará as escolas em lugares mais atractivos e gratificantes. Bem pelo contrário, é cada vez mais necessário encorajar os professores e os restantes elementos da comunidade educativa a expressarem os seus pontos de vista, os seus olhares dirigidos para a Escola, e saber interpretar esses sinais. A crítica doentia ou não deve ser entendida como uma oportunidade de abertura para a mudança. Resta-nos saber discernir os motivos que a suscitam e utilizar, se formos capazes, os instrumentos teóricos necessários para esse desiderato.

publicado por Miguel Pinto às 12:28
link | comentar | ver comentários (3) | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Julho 2005

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
28
29
30
31

.posts recentes

. Outro Olhar... só no blog...

. Novo lugar.

. Exemplos que (nada) valem...

. (Des)ordem...

. Outros olhares... a mesma...

. E esta?

. O blogspot encalhou.

. Bolonha aqui tão perto.

. Olhar distante.

. Faz de conta.

.arquivos

. Julho 2005

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

. Dezembro 2003

blogs SAPO

.subscrever feeds