Domingo, 4 de Julho de 2004

3 ideias, 2 questões.

Esta transitoriedade do saber pressupõe uma atitude, do lado do professor, de acompanhamento da mudança.

Os alunos de hoje, e ao contrário do que se tem dito, têm muito maior capacidade de análise do que saber; eles sabem pouco relativamente ao volume de conhecimento que deviam ter para estar na universidade, mas sabem que não sabem e sabem por que não sabem.

O exame tem de ser um acto relacional.

Será possível isolar o aluno, dividi-lo nas suas várias dimensões e partir para uma avaliação fragmentada?

Agora que a avaliação das competências (entendido como um saber fazer em acção) faz escola na escola, não estaremos a mitificar, irracionalmente, o puro fazer?

publicado por Miguel Pinto às 12:07
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Sábado, 3 de Julho de 2004

O exame tem de ser um acto relacional.

“(...) a relação entre a universidade e os seus alunos tem de ser feita neste sentido: o que é que eles sabem, porque é que só sabem ou porque é que não sabem. E isto não tem sido conseguido
O problema levantado pelo professor Nuno Grande é um problema que atravessa todos os graus de ensino. Um ensino despersonalizado e dirigido para um aluno tipo, organizado a partir de pressupostos irrealistas, não ensina, faz que ensina, porque não conhece o aluno.
Dizia o professor que fazia sempre exames orais, porque o exame tem de ser um acto relacional, subjectivo digo eu. Quando uma torrente de questões se levanta, destaco duas:
Será possível isolar o aluno, dividi-lo nas suas várias dimensões e partir para uma avaliação fragmentada?
Agora que a avaliação das competências (entendido como um saber fazer em acção) faz escola na escola, não estaremos a mitificar, irracionalmente, o puro fazer?
publicado por Miguel Pinto às 18:22
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Professor Nuno Grande

No Bioterra encontrei esta entrevista do Professor Nuno Grande à Página em 1998. Há cerca de década e meia tive o privilégio de participar nas aulas do Professor. É uma das minhas âncoras nesta coisa do ensino pelo seu carácter, sobriedade, inteligência e capacidade prospectiva, atributos que fazem dele uma personalidade supra universitária. Considero que esta entrevista é intemporal e uma autêntica aula viva. Irei destacar algumas das ideias veiculadas pelo Professor. Talvez suscitem alguns comentários.

(...) A Página - O processo de auto-avaliação que referiu, testando a sua aproximação aos seus alunos, deve permitir-lhe perceber para onde caminham os jovens de hoje...

NG - Essa questão é muito interessante, e eu tenho uma experiência curiosa. Numa altura em que se diz que os alunos são piores, eu tive o melhor curso de sempre há cinco anos. Os rapazes que este ano se licenciaram em Medicina foram o melhor curso que eu tive em 41 anos de docência. De facto, nunca tinha tido um lote de 12 alunos de muito bom em Anatomia. E porquê? Porque foi possível que esses alunos progredissem quase independentemente de mim; no fim, disse aos meus colaboradores: 'eles são bons apesar de mim', foram capazes de encontrar caminhos e de questionar problemas.
Aliás, fizemos um conjunto de exames orais de grande qualidade - nós fazemos sempre exames orais, porque o exame tem de ser um acto relacional; o exame escrito, com as sebentas, não tem nenhum sentido; do exame final só são dispensados os alunos de suficiente ou os que chumbaram, os bons ou muito bons têm que o fazer. Ora, isto acontece ao mesmo tempo em que sabemos - e eu como pró-reitor da Universidade tenho disso notícia diária - que há níveis de acesso muito baixos em termos de formação intelectual; mais de volume de conhecimentos do que de inteligência. Agora, o que me parece, e a minha pró-reitoria foi criada para estudar o problema do insucesso escolar, é que o sistema está totalmente desarticulado. Isto é, creio que a grande reforma a fazer era dar sentido vertical ao sistema, de maneira a que um aluno, quando chega ao primeiro ano da universidade, tenha os conhecimentos necessários para o fazer, e não, como acontece hoje, que saiba coisas que apenas serão úteis daí a três anos e não saiba nada do que deveria saber nesse ano, chumbando logo aí. Há cerca de 10 anos, fiz um relatório em que procurei ver quais eram, na Universidade do Porto, as licenciaturas, anos e cadeiras que tinham maior insucesso escolar e cheguei à conclusão de que o aluno era tomado como se soubesse coisas que verdadeiramente ninguém lhe tinha ensinado. Era a partir desse pressuposto que o ensino era feito, e o aluno não percebia o que se estava a passar à sua volta. E no que é que isto dá? Dá em que eles têm, provavelmente, pouco respeito pelo sistema em si. Eu acho que o aluno de hoje nos mede muito bem, nos conhece muito bem. E enquanto que o aluno do meu tempo respeitava o saber do professor, porque era um saber, como aconteceu comigo, que o acompanhava toda a vida, o aluno de hoje sabe que aquilo que o professor lhe disser no dia de trás já não é verdade no dia seguinte - basta carregar no botão da internete! Esta transitoriedade do saber pressupõe uma atitude, do lado do professor, de acompanhamento da mudança, e não o conflito latente entre um saber em transformação acelerada, a que o aluno tem acesso, e o saber do lente, que é estável.
Eu creio que os alunos de hoje, e ao contrário do que se tem dito, têm muito maior capacidade de análise do que saber; eles sabem pouco relativamente ao volume de conhecimento que deviam ter para estar na universidade, mas sabem que não sabem e sabem por que não sabem. É esta dialéctica que tem de ser estabelecida, a relação entre a universidade e os seus alunos tem de ser feita neste sentido: o que é que eles sabem, porque é que só sabem ou porque é que não sabem. E isto não tem sido conseguido. Eu acredito muito nesta geração. Tenho uma grande esperança que venha a ser ela - e tem que ser, não há outra - a encontrar a relação entre os diversos componentes do sistema e a torná-lo mais lógico, mais útil.

publicado por Miguel Pinto às 13:07
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O desporto escolar está de parabéns!

Quais os efeitos dos resultados obtidos pela selecção portuguesa no Euro 2004 para o desporto escolar?
Sempre que o país se faz representar numa competição desportiva internacional (Jogos Olímpicos, Campeonatos da Europa e do Mundo) e as classificações alcançadas não correspondem às expectativas dos órgãos de comunicação social, os peritos do espectáculo desportivo dirigem os seus olhares para a escola, procurando encontrar as causas mais profundas do pretenso insucesso desportivo. O passado tem sido fértil em debates televisivos com painéis de especialistas em adeptos (é assim que muitos deles se auto designam), com um estatuto de “residentes”, que se entretêm a dissecar(?) o fenómeno desportivo. A posição destes adeptos é extremamente cómoda. Afinal, o que é que se pode esperar de uma adepto? Aquilo que o próprio conceito encerra: que seja um admirador, um apaixonado, que simpatize com a coisa desportiva. A substância da sua opinião no quadro em que ela se desenvolve poderá conduzir, facilmente, à irracionalidade. Ora, sendo certo que o clima em que decorrem as conversas acerca do futebol garante a audiência, ele poderá não conduzir à sapiência. Como o critério formativo não tem sido adoptado pela comunicação social nas discussões sobre o desporto, o esclarecimento terá de ser procurado noutros locais.
Mas, voltando à questão inicial, será que após o Euro 2004 se falará do desporto escolar?
Sim, se se considerar o desporto escolar como um dos pilares do modelo de desenvolvimento desportivo nacional. Nesta perspectiva, seria legitimo que o desporto escolar agregasse créditos pelos sucessos e descrédito pelos insucessos do desporto nacional. No momento em que a selecção nacional de futebol está na elite do futebol mundial, será que não existem motivos para enaltecer o trabalho que se realiza nas escolas portuguesas?
Não, se se considerar que à escola não compete a formação desportiva de base ou concorrendo para essa formação desportiva não a realiza convenientemente e que por essa razão não tem qualquer responsabilidade nos resultados desportivos nacionais.
Este olhar espontâneo não representa a complexidade da relação entre os resultados desportivos e os modelos de prática que lhes subjazem. Esta questão requer uma análise mais profunda e alargada porque o nosso modelo de prática do desporto escolar encerra um conjunto de equívocos e paradoxos.
Mas é um olhar que serve para provocarmos os comentadores desportivos, exigindo que sejam congruentes nas análises.
publicado por Miguel Pinto às 00:55
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Sexta-feira, 2 de Julho de 2004

Novos olhares

É coincidência, acreditem que não foi combinado. Descobri que o Manuel também anda nas limpezas. É curioso como os ritmos se cruzam no espaço. Acrescento à entrada anterior o Fábulas e o Blog do Alex.
publicado por Miguel Pinto às 16:09
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Um olhar para o mundo

Um quarto com vista para o mundoé um novo olhar do meu amigo Miguel. As ilhas estão cada vez mais perto.
publicado por Miguel Pinto às 15:31
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Brasileiros tímidos e adversos ao “bate-boca”.

Nestes seis meses de actividade diária, recebemos dezenas de visitas provenientes dos mais diversos quadrantes: da África às Américas, passando pela Europa à Ásia. Admitindo que uma parte dessas visitas fora tão-somente esporádica, as outras, encaminhadas pelo Google, buscavam matéria que é tratada neste espaço, nomeadamente: A escola cultural, a escola paralela, o abandono escolar precoce, os problemas associados à gestão e administração escolar, a profissionalidade docente. Há um aspecto que é comum a todos os nossos visitantes que nos olham lá do outro lado do Atlântico. Nada do que aqui se escreveu, entradas ou comentários, mereceu qualquer reparo.
Acresce-se um dado curioso. No Colóquio Virtual, promovido pela Associação de Pais da Escola da Ponte subordinado ao tema "Contributos para uma Escola Pública de Qualidade", os colegas brasileiros estiveram muito activos e manifestamente empenhados enquanto decorreu o evento. Não fiquei surpreendido com o desembaraço comunicativo que facilita, sem dúvida, a discussão. É, aliás, uma postura congruente com a representação mental do povo brasileiro, mesmo sabendo que a homogeneização é, declaradamente, excessiva. Esta referência ao colóquio (que acompanhei diariamente) não visa estabelecer algum paralelo com este despretensioso blogue. Até porque o evento contou com a presença de “verdadeiros” especialistas em Ciências da Educação, designadamente, a Isabel Menezes (Professora da Universidade do Porto, licenciada e doutorada em Psicologia, o Rubem Alves (Escritor, psicanalista e educador), o Rui Trindade (Professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, licenciou-se em Psicologia e doutorou-se em Ciências da Educação) e José Pacheco (dispensa qualquer apresentação).
O contraste entre uma intervenção espontânea e franca e a ausência dela só pode ser explicado pelo acanhamento dos visitantes (pouco provável) ou pela indiferença que emerge de expectativas frustradas.
Então, não vai um “bate-boca”?
publicado por Miguel Pinto às 08:26
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