Terça-feira, 9 de Março de 2004

Provas aferidas (II)

A Dr. Ana Benavente (AB) na Página da Educação de Março questiona o sentido das provas aferidas. Considera que o espírito que subjaz à sua criação foi, abusivamente, adulterado pelo actual governo, na justa medida em que transformou um elemento de regulação das escolas num instrumento de crítica indiscriminada.

Não resisto a tecer dois comentários à posição veiculada pela deputada do PS. Subscrevo o que disse quanto à deturpação do diploma da reorganização curricular (dec. lei 6/2001) pelo actual executivo que coarctou a margem ínfima de liberdade das escolas através de orientações relativas à Área de Projecto e ao Estudo Acompanhado.

Vejo, simultaneamente, uma grande contradição no discurso da ilustre deputada. Ao enfatizar a liberdade que o referido diploma conferiria às escolas, liberdade consubstanciada na pretensa flexibilidade do projecto curricular, AB deixou escapar o grande vazio desta proposta socialista: o espaço para as actividades educativas autodeterminadas. São as actividades com base na livre expressão da vontade dos alunos, atendendo aos recursos existentes na escola, que reúnem professores e alunos em grupos dedicados a actividades educativo-culturais determinadas pelos seus membros. O princípio pedagógico da autodeterminação educativa fornece uma orientação geral para apoiar o crescimento gradual da liberdade do educando. Enquanto que o princípio da heterodeterminação é de homogeneização, o da autodeterminação é a diferenciação e a individuação, enquanto aquele se ordena para a inteligência passiva, este ordena-se para a inteligência activa.

A Área de Projecto nunca veio a preencher o espaço de liberdade que está adstrito aos clubes escolares.

Percebo a dificuldade com que os responsáveis pela educação lidam com o problema da liberdade. A função socializadora da escola nunca foi equilibrada pela função personalizadora. Porquê? É um dos paradoxos que ninguém quer dilapidar.

Avanço com uma explicação: a instrumentalização da escola é um feudo que o poder instituído não abdicará espontaneamente. É que assim será mais fácil manipular o eleitor.

publicado por Miguel Pinto às 00:17
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