Domingo, 7 de Março de 2004

A moda dos exames

O texto de Vital Moreira (VM) – Exames escolares – no Causa nossa suscitou este breve comentário. Não se trata de desejar qualquer consenso sobre a temática. Ela permitirá tantas abordagens que a maior dificuldade é percebermos qual é a posição em que nos encontramos quando dirigimos o nosso olhar. Nestes últimos dias li e ouvi muitas declarações, tomadas de posição e comentários de vários quadrantes políticos e sociais. Vários actores se manifestaram a favor ou contra esgrimindo os argumentos que souberam. Contudo, decidi acrescentar algo à discussão tomando como referência o referido texto, porque provém de um personalidade que nos habituou à excelência. Poderá ser considerado um atrevimento fazer o que me proponho, mas as referências são isso mesmo: pessoas que norteiam e que nos obrigam à pensar mais alto.

Aferi sem qualquer surpresa a concordância de VM pelas recentes medidas anunciadas pelo Ministro da Educação. A sua independência intelectual permite-lhe demarcar-se do(s) discurso(s) de esquerda porque crê que os exames nacionais, no 6.º ano, de Matemática e Língua Portuguesa, “podem contribuir fortemente para o fomento da qualidade do ensino, para o incentivo da exigência de professores e escolas, para a criação de uma noção de responsabilidade por parte dos alunos”. No seu entender, a questão central não se prende, exclusivamente, com a necessidade de verificar as aprendizagens dos alunos mas, como sublinha no seu texto, aferir o desempenho dos professores.

Não vendo grande consistência nos seus argumentos, porque será que VM disse o que disse?

Creio mesmo que terá algo mais para dizer do que efectivamente disse.

Se o objectivo do poder instituído é a promoção de um sentido de responsabilidade aos actores responsáveis pela qualidade da educação, alargando esta responsabilidade aos pais e todos aqueles que participam directa ou indirectamente neste processo, então há que encontrar um mecanismo que seja adequado ao desiderato. Querer de forma enviesada aferir a qualidade do desempenho dos docentes através da instrumentalização dos alunos é sempre condenável sob um ponto de vista ético. Também não subscrevo os argumentos psicologistas que os exames provocam qualquer tipo de trauma às crianças. As avaliações não são intrinsecamente torturantes. O problema está nas práticas avaliativas deficientes e incorrectas sob o ponto de vista pedagógico. Todos sabemos que os exames no ensino secundário têm um efeito perverso, coagindo as práticas lectivas às amarras programáticas e transformando os alunos em meros receptáculos da matéria. Um programa estático, fechado e máximo, dificilmente dará o seu lugar ao programa dinâmico, aberto e mínimo. É a pedagogia positivista no seu esplendor. Queremos alargar esta praga para os níveis de ensino elementares?

E a quem que isto interessa?

Talvez interesse aos ideólogos neoliberais e neoconservadores que procuram impor uma lógica que ameaça a lucidez pedagógica e educacional. A lógica do mercado já iniciou a sua incursão no terreno educativo.

publicado por Miguel Pinto às 19:17
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